2/9/2014 08:59

"Cheiro" de título, polêmicas, Pato e fé: Mário Gobbi avalia mandato

Presidente chega à reta final no Corinthians e se vê fora da política em 2015. Afeito à religião, ele conserva imagens em mesa e promete deixar legado

Calmamente, o delegado Mário Gobbi Filho folheia o jornal oficial do Corinthians. Lê com atenção a seção “Palavra do Presidente”. Fita o assessor de imprensa, que está a poucos metros de distância. Abre um sorriso, olha para uma das dezenas de imagens de santos presentes em seu gabinete presidencial no quinto andar da sede do clube, no Parque São Jorge. E avisa, num misto de lamento e alívio:

- Isso aqui está acabando.

A partir de fevereiro de 2015, Mário Gobbi Filho não vai mais participar da vida política do clube que aprendeu a seguir desde garoto, em Jaú, no interior de São Paulo. Vai dar lugar ao seu sucessor. Como legado, deixa títulos, a nova Arena, um time competitivo e dívidas - que ele garante serem administráveis. Deixa também uma mesa cheia de imagens religiosas e um "cheiro" de título. Um perfume que diz ter sentido na noite de 4 de julho de 2012, dia em que o Corinthians foi campeão da Taça Libertadores pela primeira vez.

- No dia da final, senti um perfume no ar em São Paulo. Um perfume de título. Eu falava sobre esse perfume. No Pacaembu, o mesmo perfume. Algo assim que te acalmava, dava paz, luz, uma bênção. Uma coisa confortante. Uma coisa boa que te deixa com o coração quieto, em paz. A melhor sensação que tive como presidente - assegura.


Mário Gobbi beija a taça de campeão do mundo, conquistada no Japão

Às vésperas do último aniversário do Corinthians com Gobbi no comando (o clube fez 104 na última segunda-feira), o presidente recebeu a reportagem do GloboEsporte.com e revisitou todo o seu período no cargo máximo do clube. Falou de erros, acertos, polêmicas... Admitiu, inclusive, que a contratação de Alexandre Pato foi a maior frustração em quase três anos de mandato. Descartou mais uma vez a contratação de Nilmar, mas avisou que está de olho no volante Cristian.

Em uma hora de conversa, Mário Gobbi contou histórias, celebrou a Arena, relembrou bastidores de todo o processo que culminou na saída de Tite e na chegada de Mano Menezes, falou da invasão ao CT em fevereiro deste ano, das recentes denúncias a alguns de seus pares - inclusive o ex-presidente Andrés Sanchez. Gobbi explicou por que pagou R$ 15 milhões em impostos atrasados para inocentar o amigo, acusado ao lado de outros três cartolas de reter o pagamento à Receita Federal.

Confira abaixo a íntegra da entrevista:

A principal novidade do Corinthians nesse aniversário de 104 anos é o estádio. Quais são as primeiras impressões? Como torcedor e presidente, o que está achando?
O Corinthians faz 104 anos tendo como grande marco o seu estádio. Moderno, bonito, prático, acomoda bem o corintiano. O estádio está pronto, mas existem alguns detalhes que ainda faltam ser feitos. Nós estamos cuidando disso, começando por tirar aquilo que tinha de ter em razão da Copa e não precisa ter mais. E não queremos que tenha para os nossos jogos. É uma experiência nova, o Corinthians nunca teve estádio. E lá sempre houve uma gestão independente. Quem comanda aquilo é um fundo composto por Corinthians, Caixa e Odebrecht, isso durante dez anos, até se quitar o valor do estádio. Daí para frente, é só do Corinthians. Para que todos entendam, toda a receita que o estádio gera vai para o fundo, que por sua vez amortiza a dívida do estádio. Começamos com os jogos, daqui a pouco vamos começar com os restaurantes, espaços festivos, lojas, bares, etc. Um espaço multiuso que vai dar muita receita e fazer junto com o naming rights, camarotes e cadeiras, o pagamento do estádio.

A definição dos naming rights gera uma ansiedade? Quando o clube vai anunciar esse novo parceiro?
A grande receita vem da venda dos naming rights. Quase fechamos por duas vezes, não deu certo, está em aberto... Creio que logo teremos alguma novidade boa. Estamos começando, devemos começar nos próximos dias a vender os camarotes, cadeiras e tal. Isso vai gerar uma receita alta que vai amortizar bem a dívida.



O senhor tem uma ideia de números? A renda líquida média do estádio está na casa de R$ 1,6 milhão...
Acho que a venda dos camarotes e das cadeiras vai aumentar substancialmente a receita e, via de consequência, amortizar a dívida.

O senhor pagaria R$ 350 para assistir a um jogo na Arena?
Se eu posso pagar, pagaria. Se não posso, vou no setor onde posso. Lá tem setores de preços dos mais variados. O Corinthians é o time do povo. Eu, nesses dois anos e sete meses de presidência, nunca mexi nos preços dos ingressos, nem nas finais de campeonatos em que os outros mexiam.

O Corinthians não mexeu. Só que agora não é o Corinthians, é um fundo, há uma planilha a se cumprir para fechar a quitação da dívida. Mesmo assim, num esforço grande, o Andrés conseguiu equacionar um corte no valor de alguns setores e parece que vamos caminhar bem.

Qual você considera o maior acerto e maior erro de sua gestão?
Uma gestão se faz com o trabalho de todos, da diretoria até os funcionários. É um conjunto de acertos e de erros. Quando paro e penso nos acertos e erros, vejo que os acertos são infinitamente superiores. Difícil dizer o maior acerto, não sei te dizer qual foi.

Temos uma gestão vitoriosa, ganhamos quatro títulos, três dos quais nunca vencemos antes (Recopa Sul-Americana, Libertadores e Mundial de Clubes no Japão). Terminamos o estádio, estamos começando a plantar a grama do CT da base, paisagismo novo no clube, benfeitorias em todos os setores... É um conjunto de melhorias. O Corinthians nunca deixou de ter um time competitivo.

Houve erros, principalmente no futebol?
O grande erro não foi um erro... Você faz convicto de que vai acertar, e nem tudo dá certo. Por exemplo, eu não chamo de erro, mas é uma frustração grande o Pato não ter dado certo aqui no Corinthians.

Pelo investimento feito nele, muito alto, 15 milhões de euros. Ele tem um potencial grande e nós esperávamos outra coisa do Pato. Inclusive com projeto de marketing em cima dele, tudo mais. Por isso ele veio. Com 22 para 23 anos, venderíamos após alguns anos e recuperaríamos o investimento feito. O que importa é a boa fé, boa índole, intenção e esforço.


Religioso, Gobbi aponta para imagem de Jesus Cristo

Após a negociação com o Montillo, o senhor disse que não iria comprometer tanto dinheiro para pagar um jogador só. O que mudou quando a sua direção resolveu contratar Alexandre Pato?

Montillo foi quando eu estava entrando na presidência. Ele ia custar o valor do patrocínio master da camisa. Não posso comprar um jogador por esse valor.

Montillo tinha uma certa idade. Com o Pato já éramos campeões do mundo, o projeto era do bicampeonato. Seguramos o Paulinho, tínhamos confiança no bi da Libertadores... Imagine, o time campeão do mundo com Pato, Renato Augusto e Gil. Confiamos muito nisso.

Era para acontecer, não fosse o que o Carlos Amarilla (árbitro paraguaio) fez no Pacaembu. Isso nos prejudicou bastante no projeto. Mas o Pato tinha um mercado, jogava no Milan, era da seleção brasileira... São coisas que não se comparam, e que ocorreram em momentos totalmente distintos.

O senhor tem acompanhado o Pato no São Paulo? O que está achando do desempenho dele?
O fato de o Pato não ter dado certo aqui como jogador não tira as qualidades e virtudes dele, o carinho que nós temos por ele. Queremos que ele seja muito feliz, porque só assim vamos poder recuperar o que investimos nele. Mas não é só por isso.

Queremos que as pessoas sejam felizes mesmo. Quem quer o bem, colhe o bem. E nós queremos o bem do Pato, que ele jogue, faça gols, aproveite todo o seu potencial. Ele é jovem. Já que não tivemos o futebol dele, pelo menos vamos recuperar o rico dinheirinho...

Nessa atual janela de transferências, jornais italianos especularam a volta do Pato. Chegou algo à sua mesa?
A única proposta que estamos aguardando é pelo Romarinho. De resto, não chegou nada.

No caso do Romarinho, é uma boa negociá-lo? É o momento para reforçar o caixa?
Depende da proposta, vamos aguardar. Quando ela chegar, vamos pensar, ver o que o Romarinho quer... Sendo bom para as três partes, fazemos negócio. Se não, ele fica conosco, é um grande jogador, precisamos dele.

Após momentos conturbados com os rivais na gestão do Andrés, sua gestão parece ter sido bem mais pacífica. Qual sua relação hoje com São Paulo (Carlos Miguel Aidar), Palmeiras (Paulo Nobre) e Santos (Odílio Rodrigues)?
Nos damos muitíssimo bem e há um respeito muito grande entre nós.

Como presidente, não tive problemas com Juvenal Juvêncio, Arnaldo Tirone, Paulo Nobre, Aidar, muito menos com Laor e Odílio. Sempre foi uma relação muito boa, de modo que não posso reclamar de absolutamente nada. Teve o fato de não jogarmos mais no Morumbi...

No futebol se usa muito o termo “jogar em casa”. O que é casa? Casa é onde você fica com habitualidade. Se apagar todas as luzes de uma casa, você anda sozinho dentro dela, bebe um copo d’água... O cheiro é o seu.

O Morumbi nunca foi a nossa casa, sempre foi o Pacaembu. Se puxar uma estatística de quantos jogos o Corinthians mandou no Pacaembu, a diferença é enorme. Ora...

Se jogamos o campeonato todo no Pacaembu, por que vou tirar os jogos finais de lá? Isso é um conceito que sempre defendi no Corinthians. Mas isso faz parte do passado. Nós ganhamos tudo no Pacaembu, até a Libertadores.



E as declarações do Aidar não incomodam?
Não me incomodam, e não entro nisso porque acho que do jeito que a violência está, principalmente no futebol, não aconselho se brincar com o futebol. Nem todos ouvem a brincadeira da mesma forma.

Temos visto esses presidentes aparecendo bastante, dando entrevistas, falando... O senhor está um pouco mais discreto. É assim que pretende terminar o mandato?
Quando entrei no Corinthians, em 2000, disse a mim mesmo que manteria uma postura de discrição.

Não estou aqui para ser conhecido. Estou aqui para lutar por um ideal que acredito. Cada um tem sua personalidade, o seu estilo, cada um é um mundo.

Sempre fui assim como presidente, candidato, diretor de futebol... Vou sair do mesmo jeito que entrei. Missão cumprida, consciência em paz. Vou retomar minha carreira, preciso finalizá-la.

Deixando a presidência, o senhor vai deixar de viver a vida política do clube?
Depois que você exerce a presidência de um clube...

É muito sério você ser um ex-presidente. Ser presidente é um desgaste violento. Sua postura, conduta, o que você fala, tudo tem uma ressonância grande. Eu estou saindo da vida política do Corinthians.

Continuarei no meu grupo, votarei com o meu grupo, mas fazer política, linha de frente de política, viver politicamente... O que eu tinha de contribuir com o Corinthians, eu já fiz.

Dentro desse "desgaste violento", acha que seu momento de maior estresse foi ter de encerrar o trabalho do Tite e reformular uma equipe campeã mundial?

Sinceramente, não foi. Disse ao grupo, à comissão técnica, quando terminou o primeiro turno do Brasileiro do ano passado. Fui ao CT e disse a todos eles que tinha uma inveja boa deles, porque conseguiram formar uma família.

Eles estavam se esquecendo de que, para manter a família, era preciso buscar três pontos em todos os jogos, e que sem isso ia terminar a irmandade, a família... Eu não queria que terminasse.

Era um grupo forte, vencedor, que provou isso. Eu apenas alertava que se continuasse daquela forma, era inevitável que mudanças viriam. Fiz um apelo a todos para que redobrassem os trabalhos para alavancar no segundo turno e colocar o Corinthians na Libertadores.

Não deu certo...
Era uma comissão técnica que ganhou tudo. Paulista, Libertadores, Recopa, Mundial. É difícil você manter a adrenalina durante muitos anos.

A história mostra outros clubes que passaram por isso. Fiz tudo conscientemente. Quero lhe dizer que a saída do Tite não foi opção minha, foi da diretoria de futebol, mais a minha opinião, mais a de pessoas ilustres que conheço no clube e foram consultadas.

Também quero dizer que outras pessoas da diretoria haviam pedido antes a saída do treinador, e eu o segurei no cargo até o final do contrato.

Como se deu o processo que culminou na troca do comando?
Quando chegássemos aos 48 pontos, eu diria ao professor Tite que o ciclo dele estava encerrado.

Eu estava na porta do ônibus quando o time voltou de Curitiba, com 48 pontos, chamei ele na minha sala com os diretores e disse que era chegado o momento de tomarmos caminhos distintos, para o bem dele e o bem do Corinthians. Ele falou que era melhor colocar que a decisão era de consenso. Achei isso maravilhoso.

Conduziríamos da forma que ele preferisse. Se quisesse, diríamos que ele pediu para sair, em respeito à história, aos títulos, a tudo que ganhou aqui.

Qual não foi a minha surpresa quando vi aí fora que eu fui o algoz da saída do técnico? Eu fiquei como o dirigente que demitiu o treinador. Não se demitiu. O contrato venceu, e tudo tem um fim. Aqui ninguém é vitalício. Daqui a cinco meses, quem sai sou eu. Isso faz parte da vida.

Foi fácil a escolha pelo Mano?
Consultei diretores e pessoas ilustres do clube. O nome do Mano partiu de mim, mas todos acordaram. Pelo trabalho que ele fez aqui de 2008 a 2010.

Pegou o time na Série B e levou à Série A, foi campeão paulista invicto, campeão da Copa do Brasil, deixou o time para ir à seleção brasileira com 12 pontos à frente do segundo colocado. Era só o Adilson fazer o time ser campeão... Mas não deu certo.

O Mano revelou Castán, André Santos, Elias, Jucilei, e assim foi... Cristian também. Todos indicados por ele. O sucesso do passado dele o credenciou a voltar para cá.

O senhor citou o Cristian. Recentemente, uma declaração sua falava em acordo verbal para ele voltar ao Corinthians. Com a rescisão na Turquia, ele volta?
As portas estão abertas, desde que o Cristian queira ganhar o salário dele compatível com o mercado do Brasil.

Este também é o maior problema para trazer o Nilmar?
Na consulta que formulamos, digamos que o que o empresário nos colocou transcende o patamar do Brasil. Portanto, não há como falar em negócio, está muito distante do que o clube pretende oferecer.

Diante de tantas dificuldades financeiras, como trazer o atacante que o Mano tanto pede?
Não dá mais para fazer loucuras. Já fizemos e fizeram muito. Agora não dá mais para fazer. Temos de encontrar nos atalhos as soluções que o treinador quer, porque não dá mais. Há dois anos, eu fecharia o contrato com esses jogadores, mas eu não posso mais fazer isso.


Por quê?
A realidade nossa é outra.

Em que estágio o senhor avalia o atual trabalho do Mano?
Começamos a montar esse time há cinco meses. Não se monta um time em cinco meses. Teve gente que estreou agora. Lodeiro estreou faz dez dias. O time você monta em um ano.

Terminado esse ano, você vai avaliar para saber onde tem de por mais qualidade técnica.

Você pode ter certeza absoluta de que essa base que estamos montando vai ser vitoriosa no ano que vem. Pode ser neste ano ainda. Estamos no G-4 do Brasileiro.

Pode ganhar este ano, mas o trabalho tem de ter sequência. O time está tomando corpo, está se conhecendo e entrosando. Isso demora, leva tempo.

A base está pronta, o time está estruturado. Não vamos fazer papel feio, pelo contrário. Mas o time é muito novo, poucos estavam aqui em dezembro. Estamos trocando de ciclista com a bicicleta andando.

O senhor pretende apoiar algum possível sucessor? Será Roberto de Andrade (ex-diretor de futebol)?
Pretendo apoiar. Pertenço a um grupo político, e meu candidato é o candidato do grupo.

Mas é muito cedo para falar de política, quem faz isso presta um desserviço ao clube. Há um desconforto, porque a eleição é na primeira semana de fevereiro. Até lá tem muita coisa para passar. Vou me manifestar sobre o nosso candidato em outubro. Antes disso, não falo em política. E não sabemos quem será candidato.


Altar com imagens, bíblias, santas... decora a sala da presidência no Timão


A questão dos impostos não pagos ajudou a efervescer essa política?
Não eram impostos não pagos, porque em 2013 fizemos um acordo e estávamos pagando.

A Justiça considerava não pagos, tanto que quatro dirigentes foram denunciados... (Andrés Sanchez, Raul Correa da Silva, André Luiz de Oliveira e Roberto de Andrade eram alvo de ação penal por “calote” no acerto do imposto de renda)

O representante do Ministério Público entendeu que o acordo não elide o crime. O juiz seguiu o raciocínio dele, contra a opinião de muita gente, até de um Ives Gandra Martins, papa do direito tributário no Brasil.

Para que os dirigentes com uma grande folha de serviços prestados ao clube não passassem por este constrangimento, quitamos o débito da ação penal, elidimos ela, e o restante entramos no Refis (Programa de Recuperação Fiscal do Governo) e pagamos a primeira parcela.

O senhor admite o pagamento para "salvar a pele" dos dirigentes...
Sim, e para mim é uma questão resolvida. Entramos no Refis com o resto da dívida e pagamos a primeira parcela. Não precisava disso, porque o acordo havia sido feito em 2013. O que eu acho estranho é que só o Corinthians foi acionado. Isso ninguém me responde.

A invasão ao CT ainda te incomoda ou é um fato superado?
Superado.



02/09/2014 07h49 - Atualizado em 02/09/2014 07h49
"Cheiro" de título, polêmicas, Pato e fé: Mário Gobbi avalia mandato
Presidente chega à reta final no Corinthians e se vê fora da política em 2015. Afeito à religião, ele conserva imagens em mesa e promete deixar legado
Por Diego Ribeiro e Rodrigo Faber
São Paulo
FACEBOOK
TWITTER


Calmamente, o delegado Mário Gobbi Filho folheia o jornal oficial do Corinthians. Lê com atenção a seção “Palavra do Presidente”. Fita o assessor de imprensa, que está a poucos metros de distância. Abre um sorriso, olha para uma das dezenas de imagens de santos presentes em seu gabinete presidencial no quinto andar da sede do clube, no Parque São Jorge. E avisa, num misto de lamento e alívio:

- Isso aqui está acabando.

A partir de fevereiro de 2015, Mário Gobbi Filho não vai mais participar da vida política do clube que aprendeu a seguir desde garoto, em Jaú, no interior de São Paulo. Vai dar lugar ao seu sucessor. Como legado, deixa títulos, a nova Arena, um time competitivo e dívidas - que ele garante serem administráveis. Deixa também uma mesa cheia de imagens religiosas e um "cheiro" de título. Um perfume que diz ter sentido na noite de 4 de julho de 2012, dia em que o Corinthians foi campeão da Taça Libertadores pela primeira vez.

- No dia da final, senti um perfume no ar em São Paulo. Um perfume de título. Eu falava sobre esse perfume. No Pacaembu, o mesmo perfume. Algo assim que te acalmava, dava paz, luz, uma bênção. Uma coisa confortante. Uma coisa boa que te deixa com o coração quieto, em paz. A melhor sensação que tive como presidente - assegura.
Mario Gobbi presidente do Corinthians entrevista (Foto: Marcos Ribolli / Globoesporte.com)
Mário Gobbi beija a taça de campeão do mundo, conquistada no Japão (Foto: Marcos Ribolli / Globoesporte.com)
Às vésperas do último aniversário do Corinthians com Gobbi no comando (o clube fez 104 na última segunda-feira), o presidente recebeu a reportagem do GloboEsporte.com e revisitou todo o seu período no cargo máximo do clube. Falou de erros, acertos, polêmicas... Admitiu, inclusive, que a contratação de Alexandre Pato foi a maior frustração em quase três anos de mandato. Descartou mais uma vez a contratação de Nilmar, mas avisou que está de olho no volante Cristian.

Em uma hora de conversa, Mário Gobbi contou histórias, celebrou a Arena, relembrou bastidores de todo o processo que culminou na saída de Tite e na chegada de Mano Menezes, falou da invasão ao CT em fevereiro deste ano, das recentes denúncias a alguns de seus pares - inclusive o ex-presidente Andrés Sanchez. Gobbi explicou por que pagou R$ 15 milhões em impostos atrasados para inocentar o amigo, acusado ao lado de outros três cartolas de reter o pagamento à Receita Federal.

Confira abaixo a íntegra da entrevista:

A principal novidade do Corinthians nesse aniversário de 104 anos é o estádio. Quais são as primeiras impressões? Como torcedor e presidente, o que está achando?
O Corinthians faz 104 anos tendo como grande marco o seu estádio. Moderno, bonito, prático, acomoda bem o corintiano. O estádio está pronto, mas existem alguns detalhes que ainda faltam ser feitos. Nós estamos cuidando disso, começando por tirar aquilo que tinha de ter em razão da Copa e não precisa ter mais. E não queremos que tenha para os nossos jogos. É uma experiência nova, o Corinthians nunca teve estádio. E lá sempre houve uma gestão independente. Quem comanda aquilo é um fundo composto por Corinthians, Caixa e Odebrecht, isso durante dez anos, até se quitar o valor do estádio. Daí para frente, é só do Corinthians. Para que todos entendam, toda a receita que o estádio gera vai para o fundo, que por sua vez amortiza a dívida do estádio. Começamos com os jogos, daqui a pouco vamos começar com os restaurantes, espaços festivos, lojas, bares, etc. Um espaço multiuso que vai dar muita receita e fazer junto com o naming rights, camarotes e cadeiras, o pagamento do estádio.

A definição dos naming rights gera uma ansiedade? Quando o clube vai anunciar esse novo parceiro?
A grande receita vem da venda dos naming rights. Quase fechamos por duas vezes, não deu certo, está em aberto... Creio que logo teremos alguma novidade boa. Estamos começando, devemos começar nos próximos dias a vender os camarotes, cadeiras e tal. Isso vai gerar uma receita alta que vai amortizar bem a dívida.

mosaico Mario Gobbi presidente do Corinthians (Foto: Editoria de Arte/Fotos Marcos Ribolli)

O senhor tem uma ideia de números? A renda líquida média do estádio está na casa de R$ 1,6 milhão...
Acho que a venda dos camarotes e das cadeiras vai aumentar substancialmente a receita e, via de consequência, amortizar a dívida.
O grande erro não foi um erro... Você faz convicto de que vai acertar, e nem tudo dá certo. Por exemplo, eu não chamo de erro, mas é uma frustração grande o Pato não ter dado certo aqui no Corinthians. Pelo investimento feito nele, muito alto, 15 milhões de euros. Ele tem um potencial grande e nós esperávamos outra coisa do Pato
Mário Gobbi, sobre Alexandre Pato
O senhor pagaria R$ 350 para assistir a um jogo na Arena?
Se eu posso pagar, pagaria. Se não posso, vou no setor onde posso. Lá tem setores de preços dos mais variados. O Corinthians é o time do povo. Eu, nesses dois anos e sete meses de presidência, nunca mexi nos preços dos ingressos, nem nas finais de campeonatos em que os outros mexiam. O Corinthians não mexeu. Só que agora não é o Corinthians, é um fundo, há uma planilha a se cumprir para fechar a quitação da dívida. Mesmo assim, num esforço grande, o Andrés conseguiu equacionar um corte no valor de alguns setores e parece que vamos caminhar bem.

Qual você considera o maior acerto e maior erro de sua gestão?
Uma gestão se faz com o trabalho de todos, da diretoria até os funcionários. É um conjunto de acertos e de erros. Quando paro e penso nos acertos e erros, vejo que os acertos são infinitamente superiores. Difícil dizer o maior acerto, não sei te dizer qual foi. Temos uma gestão vitoriosa, ganhamos quatro títulos, três dos quais nunca vencemos antes (Recopa Sul-Americana, Libertadores e Mundial de Clubes no Japão). Terminamos o estádio, estamos começando a plantar a grama do CT da base, paisagismo novo no clube, benfeitorias em todos os setores... É um conjunto de melhorias. O Corinthians nunca deixou de ter um time competitivo.

Houve erros, principalmente no futebol?
O grande erro não foi um erro... Você faz convicto de que vai acertar, e nem tudo dá certo. Por exemplo, eu não chamo de erro, mas é uma frustração grande o Pato não ter dado certo aqui no Corinthians. Pelo investimento feito nele, muito alto, 15 milhões de euros. Ele tem um potencial grande e nós esperávamos outra coisa do Pato. Inclusive com projeto de marketing em cima dele, tudo mais. Por isso ele veio. Com 22 para 23 anos, venderíamos após alguns anos e recuperaríamos o investimento feito. O que importa é a boa fé, boa índole, intenção e esforço.

Mario Gobbi presidente do Corinthians entrevista (Foto: Marcos Ribolli / Globoesporte.com)
Religioso, Gobbi aponta para imagem de Jesus Cristo
(Foto: Marcos Ribolli / Globoesporte.com)
Após a negociação com o Montillo, o senhor disse que não iria comprometer tanto dinheiro para pagar um jogador só. O que mudou quando a sua direção resolveu contratar Alexandre Pato?
Montillo foi quando eu estava entrando na presidência. Ele ia custar o valor do patrocínio master da camisa. Não posso comprar um jogador por esse valor. Montillo tinha uma certa idade. Com o Pato já éramos campeões do mundo, o projeto era do bicampeonato. Seguramos o Paulinho, tínhamos confiança no bi da Libertadores... Imagine, o time campeão do mundo com Pato, Renato Augusto e Gil. Confiamos muito nisso. Era para acontecer, não fosse o que o Carlos Amarilla (árbitro paraguaio) fez no Pacaembu. Isso nos prejudicou bastante no projeto. Mas o Pato tinha um mercado, jogava no Milan, era da seleção brasileira... São coisas que não se comparam, e que ocorreram em momentos totalmente distintos.

O senhor tem acompanhado o Pato no São Paulo? O que está achando do desempenho dele?
O fato de o Pato não ter dado certo aqui como jogador não tira as qualidades e virtudes dele, o carinho que nós temos por ele. Queremos que ele seja muito feliz, porque só assim vamos poder recuperar o que investimos nele. Mas não é só por isso. Queremos que as pessoas sejam felizes mesmo. Quem quer o bem, colhe o bem. E nós queremos o bem do Pato, que ele jogue, faça gols, aproveite todo o seu potencial. Ele é jovem. Já que não tivemos o futebol dele, pelo menos vamos recuperar o rico dinheirinho...

Nessa atual janela de transferências, jornais italianos especularam a volta do Pato. Chegou algo à sua mesa?
A única proposta que estamos aguardando é pelo Romarinho. De resto, não chegou nada.

Nós queremos o bem do Pato, que ele jogue, faça gols, aproveite todo o seu potencial. Ele é jovem. Já que não tivemos o futebol dele, pelo menos vamos recuperar o rico dinheirinho...
Mário Gobbi, ainda sobre Pato
No caso do Romarinho, é uma boa negociá-lo? É o momento para reforçar o caixa?
Depende da proposta, vamos aguardar. Quando ela chegar, vamos pensar, ver o que o Romarinho quer... Sendo bom para as três partes, fazemos negócio. Se não, ele fica conosco, é um grande jogador, precisamos dele.

Após momentos conturbados com os rivais na gestão do Andrés, sua gestão parece ter sido bem mais pacífica. Qual sua relação hoje com São Paulo (Carlos Miguel Aidar), Palmeiras (Paulo Nobre) e Santos (Odílio Rodrigues)?
Nos damos muitíssimo bem e há um respeito muito grande entre nós. Como presidente, não tive problemas com Juvenal Juvêncio, Arnaldo Tirone, Paulo Nobre, Aidar, muito menos com Laor e Odílio. Sempre foi uma relação muito boa, de modo que não posso reclamar de absolutamente nada. Teve o fato de não jogarmos mais no Morumbi... No futebol se usa muito o termo “jogar em casa”. O que é casa? Casa é onde você fica com habitualidade. Se apagar todas as luzes de uma casa, você anda sozinho dentro dela, bebe um copo d’água... O cheiro é o seu. O Morumbi nunca foi a nossa casa, sempre foi o Pacaembu. Se puxar uma estatística de quantos jogos o Corinthians mandou no Pacaembu, a diferença é enorme. Ora... Se jogamos o campeonato todo no Pacaembu, por que vou tirar os jogos finais de lá? Isso é um conceito que sempre defendi no Corinthians. Mas isso faz parte do passado. Nós ganhamos tudo no Pacaembu, até a Libertadores.

Mario Gobbi presidente do Corinthians entrevista (Foto: Marcos Ribolli / Globoesporte.com)
Mário Gobbi e o Corinthians: paixão incondicional
(Foto: Marcos Ribolli / Globoesporte.com)
E as declarações do Aidar não incomodam?
Não me incomodam, e não entro nisso porque acho que do jeito que a violência está, principalmente no futebol, não aconselho se brincar com o futebol. Nem todos ouvem a brincadeira da mesma forma.

Temos visto esses presidentes aparecendo bastante, dando entrevistas, falando... O senhor está um pouco mais discreto. É assim que pretende terminar o mandato?
Quando entrei no Corinthians, em 2000, disse a mim mesmo que manteria uma postura de discrição. Não estou aqui para ser conhecido. Estou aqui para lutar por um ideal que acredito. Cada um tem sua personalidade, o seu estilo, cada um é um mundo. Sempre fui assim como presidente, candidato, diretor de futebol... Vou sair do mesmo jeito que entrei. Missão cumprida, consciência em paz. Vou retomar minha carreira, preciso finalizá-la.

Deixando a presidência, o senhor vai deixar de viver a vida política do clube?
Depois que você exerce a presidência de um clube... É muito sério você ser um ex-presidente. Ser presidente é um desgaste violento. Sua postura, conduta, o que você fala, tudo tem uma ressonância grande. Eu estou saindo da vida política do Corinthians. Continuarei no meu grupo, votarei com o meu grupo, mas fazer política, linha de frente de política, viver politicamente... O que eu tinha de contribuir com o Corinthians, eu já fiz.

O que é casa? Casa é onde você fica com habitualidade. Se apagar todas as luzes de uma casa, você anda sozinho dentro dela, bebe um copo d’água... O cheiro é o seu. O Morumbi nunca foi a nossa casa, sempre foi o Pacaembu
Mário Gobbi, sobre estádio
Dentro desse "desgaste violento", acha que seu momento de maior estresse foi ter de encerrar o trabalho do Tite e reformular uma equipe campeã mundial?
Sinceramente, não foi. Disse ao grupo, à comissão técnica, quando terminou o primeiro turno do Brasileiro do ano passado. Fui ao CT e disse a todos eles que tinha uma inveja boa deles, porque conseguiram formar uma família. Eles estavam se esquecendo de que, para manter a família, era preciso buscar três pontos em todos os jogos, e que sem isso ia terminar a irmandade, a família... Eu não queria que terminasse. Era um grupo forte, vencedor, que provou isso. Eu apenas alertava que se continuasse daquela forma, era inevitável que mudanças viriam. Fiz um apelo a todos para que redobrassem os trabalhos para alavancar no segundo turno e colocar o Corinthians na Libertadores.

Não deu certo...
Era uma comissão técnica que ganhou tudo. Paulista, Libertadores, Recopa, Mundial. É difícil você manter a adrenalina durante muitos anos. A história mostra outros clubes que passaram por isso. Fiz tudo conscientemente. Quero lhe dizer que a saída do Tite não foi opção minha, foi da diretoria de futebol, mais a minha opinião, mais a de pessoas ilustres que conheço no clube e foram consultadas. Também quero dizer que outras pessoas da diretoria haviam pedido antes a saída do treinador, e eu o segurei no cargo até o final do contrato.

Como se deu o processo que culminou na troca do comando?
Quando chegássemos aos 48 pontos, eu diria ao professor Tite que o ciclo dele estava encerrado. Eu estava na porta do ônibus quando o time voltou de Curitiba, com 48 pontos, chamei ele na minha sala com os diretores e disse que era chegado o momento de tomarmos caminhos distintos, para o bem dele e o bem do Corinthians. Ele falou que era melhor colocar que a decisão era de consenso. Achei isso maravilhoso. Conduziríamos da forma que ele preferisse. Se quisesse, diríamos que ele pediu para sair, em respeito à história, aos títulos, a tudo que ganhou aqui. Qual não foi a minha surpresa quando vi aí fora que eu fui o algoz da saída do técnico? Eu fiquei como o dirigente que demitiu o treinador. Não se demitiu. O contrato venceu, e tudo tem um fim. Aqui ninguém é vitalício. Daqui a cinco meses, quem sai sou eu. Isso faz parte da vida.

Quero lhe dizer que a saída do Tite não foi opção minha, foi da diretoria de futebol, mais a minha opinião, mais a de pessoas ilustres que conheço no clube e foram consultadas. Também quero dizer que outras pessoas da diretoria haviam pedido antes a saída do treinador, e eu o segurei no cargo até o final do contrato.
Mário Gobbi, sobre Tite
Foi fácil a escolha pelo Mano?
Consultei diretores e pessoas ilustres do clube. O nome do Mano partiu de mim, mas todos acordaram. Pelo trabalho que ele fez aqui de 2008 a 2010. Pegou o time na Série B e levou à Série A, foi campeão paulista invicto, campeão da Copa do Brasil, deixou o time para ir à seleção brasileira com 12 pontos à frente do segundo colocado. Era só o Adilson fazer o time ser campeão... Mas não deu certo. O Mano revelou Castán, André Santos, Elias, Jucilei, e assim foi... Cristian também. Todos indicados por ele. O sucesso do passado dele o credenciou a voltar para cá.

O senhor citou o Cristian. Recentemente, uma declaração sua falava em acordo verbal para ele voltar ao Corinthians. Com a rescisão na Turquia, ele volta?
As portas estão abertas, desde que o Cristian queira ganhar o salário dele compatível com o mercado do Brasil.

Este também é o maior problema para trazer o Nilmar?
Na consulta que formulamos, digamos que o que o empresário nos colocou transcende o patamar do Brasil. Portanto, não há como falar em negócio, está muito distante do que o clube pretende oferecer.

Diante de tantas dificuldades financeiras, como trazer o atacante que o Mano tanto pede?
Não dá mais para fazer loucuras. Já fizemos e fizeram muito. Agora não dá mais para fazer. Temos de encontrar nos atalhos as soluções que o treinador quer, porque não dá mais. Há dois anos, eu fecharia o contrato com esses jogadores, mas eu não posso mais fazer isso.

As portas estão abertas, desde que o Cristian queira ganhar o salário dele compatível com o mercado do Brasil.
Mário Gobbi, sobre o volante
Por quê?
A realidade nossa é outra.

Em que estágio o senhor avalia o atual trabalho do Mano?
Começamos a montar esse time há cinco meses. Não se monta um time em cinco meses. Teve gente que estreou agora. Lodeiro estreou faz dez dias. O time você monta em um ano. Terminado esse ano, você vai avaliar para saber onde tem de por mais qualidade técnica. Você pode ter certeza absoluta de que essa base que estamos montando vai ser vitoriosa no ano que vem. Pode ser neste ano ainda. Estamos no G-4 do Brasileiro. Pode ganhar este ano, mas o trabalho tem de ter sequência. O time está tomando corpo, está se conhecendo e entrosando. Isso demora, leva tempo. A base está pronta, o time está estruturado. Não vamos fazer papel feio, pelo contrário. Mas o time é muito novo, poucos estavam aqui em dezembro. Estamos trocando de ciclista com a bicicleta andando.

O senhor pretende apoiar algum possível sucessor? Será Roberto de Andrade (ex-diretor de futebol)?
Pretendo apoiar. Pertenço a um grupo político, e meu candidato é o candidato do grupo. Mas é muito cedo para falar de política, quem faz isso presta um desserviço ao clube. Há um desconforto, porque a eleição é na primeira semana de fevereiro. Até lá tem muita coisa para passar. Vou me manifestar sobre o nosso candidato em outubro. Antes disso, não falo em política. E não sabemos quem será candidato.

Mario Gobbi presidente do Corinthians entrevista altar (Foto: Marcos Ribolli / Globoesporte.com)
Altar com imagens, bíblias, santas... decora a sala da presidência no Timão (Foto: Marcos Ribolli / Globoesporte.com)
A questão dos impostos não pagos ajudou a efervescer essa política?
Não eram impostos não pagos, porque em 2013 fizemos um acordo e estávamos pagando.

A Justiça considerava não pagos, tanto que quatro dirigentes foram denunciados... (Andrés Sanchez, Raul Correa da Silva, André Luiz de Oliveira e Roberto de Andrade eram alvo de ação penal por “calote” no acerto do imposto de renda)
O representante do Ministério Público entendeu que o acordo não elide o crime. O juiz seguiu o raciocínio dele, contra a opinião de muita gente, até de um Ives Gandra Martins, papa do direito tributário no Brasil. Para que os dirigentes com uma grande folha de serviços prestados ao clube não passassem por este constrangimento, quitamos o débito da ação penal, elidimos ela, e o restante entramos no Refis (Programa de Recuperação Fiscal do Governo) e pagamos a primeira parcela.

O senhor admite o pagamento para "salvar a pele" dos dirigentes...
Sim, e para mim é uma questão resolvida. Entramos no Refis com o resto da dívida e pagamos a primeira parcela. Não precisava disso, porque o acordo havia sido feito em 2013. O que eu acho estranho é que só o Corinthians foi acionado. Isso ninguém me responde.

A invasão ao CT ainda te incomoda ou é um fato superado?
Superado.


Mandato de Gobbi vai até fevereiro do próximo ano

Fica como uma mancha em sua administração?
Não, fica como um fato que aconteceu em quase todas as gestões. De torcedor ir lá, quebrar, bater... Desde quando sou gente que ouço isso. Não mudou nada, e não está mudando. Vamos separar bem as coisas.

Vocês conheceram os dois lados do Mário. Sou uma pessoa comprometida com o direito, com a cidadania. Da mesma forma que aquele que pratica uma violência deve pagar por seu ato, também defendo com fervor aquele que injustamente é cerceado de sua liberdade de ir e vir.

Os que brigaram no estádio em Brasília, os que invadiram o CT... Estes têm de pagar. Por outro lado, você não pode pegar 12 inocentes naquele caso do menino que morreu e jogar numa cadeia da Bolívia para dar uma resposta ao povo.

Seis desses 12 só foram lá saber se os outros seis precisavam de alguma coisa. Acabaram ficando lá. Tanto é verdade que todos foram absolvidos. A polícia da Bolívia não descobriu até hoje quem soltou aquele luminoso.

Eu, como cidadão, gostaria muito de saber. Agora, invadir o CT não tem defesa. Isso é inadmissível, tanto que fiz tudo. Colhi provas, filmagens, rol de testemunhas... Conhece algum presidente que fez isso? Não foi a última vez.

Isso que é o triste. O que aconteceu lá é efeito da criminalidade. Para que não se repita, temos de cuidar das causas que geram a criminalidade.

Faltou empenho dos órgãos competentes na investigação desse caso?
Aí estamos falando dos efeitos, não das causas. Segundo o juiz do caso, eles foram lá para cobrar que os jogadores jogassem mais, eles amam tanto o time que queriam que eles jogassem mais.

Perguntem ao juiz o que ele acha disso. Pode um magistrado fazer isso? Com todo o respeito. Ele pode até não ter encontrado provas, perfeito, mas fundamente com seriedade. Não dá para dizer que foram lá no afã de fazer o time jogar mais. Para mim, é uma afronta. E assim caminha a humanidade...

O que você se imagina fazendo em 1º de setembro de 2015?
Ah, eu vou cuidar da minha vida. Tenho tantos planos no lado pessoal, no profissional... Vou ficar um ano só cuidando da vida. Depois vou voltar ao bar Salve Jorge para tomar minha cerveja com os amigos, comer um tremoço, bater um papo. Viver o Corinthians.

E essa proteção toda em sua mesa? Fica de legado para o próximo presidente?
Quando cheguei à presidência, eu trouxe uma Nossa Senhora de Fátima, um São Jorge e o meu retrato de Cristo. Esses três andam comigo sempre. As pessoas foram vendo, presenteando e formando isso que você está vendo aí. Hoje mesmo ganhei esta Nossa Senhora da Penha.

Eu rezo muito, peço por todos os funcionários do Corinthians, torcedores, dirigentes, para que sempre nos dê sabedoria e humildade. Todo dia de manhã, a primeira coisa que faço é passar em Nossa Senhora de Fátima, e depois começo minha jornada de presidente.

Vai fazer o que com todas essas imagens?
Eu vou doar, só vou levar o que tinha, o resto vou doar. Já tem gente querendo, pedindo. Na hora de desfazer a mesa, faço questão de doar.

Essa religiosidade te ajudou como na condução de um clube como o Corinthians?
Vou contar uma história. O Tite é muito religioso, e nós íamos muito à igreja juntos, rezar. Em Buenos Aires, na primeira final da Libertadores contra o Boca Juniors, tinha visto uma igreja para irmos na manhã do jogo. Ele falou em uma na Recoleta (bairro de Buenos Aires). Fomos com a van, entramos na igreja, fiquei em silêncio, ficamos um tempão lá. Algo me dizia ali, com aquela paz, que teríamos um bom resultado. Empatamos e decidimos em casa.

Teve algo especial no dia do título?
No dia da final, senti um perfume no ar em São Paulo. Um perfume de título. Eu falava sobre esse perfume. No Pacaembu, o mesmo perfume.

O senhor consegue descrever esse perfume? Esse dia?
Algo assim que te acalmava, dava paz, luz, uma bênção. Uma coisa confortante. Uma coisa boa que te deixa com o coração quieto, em paz...

Um cheiro muito gostoso. Desde o CT, chamei Duílio Monteiro Alves e Roberto de Andrade (ex-diretores), pedi para sentirem o aroma. Víamos as luzes piscando, eram os rojões, mas nós não ouvíamos porque estávamos muito longe. Ao meio-dia, fui numa coletiva com Pelé, o presidente do Boca, o da Conmebol... Foi bacana. Tinha um perfume de título.

Quando chegamos ao Pacaembu, senti o mesmo cheiro. Não tem explicação. Por isso digo que, se me derem o Banco Central, a Lua, o mundo... Troco pela Libertadores? Desculpe-me, isso eu não troco por nada.


VEJA TAMBÉM
- Corinthians libera jovem zagueiro do Sub-20 para transferência
- Oque aconteceu com ele? Goleiro do Corinthians liberada para empréstimo ainda não foi anunciado em novo time
- Corinthians tem retornos de jogadores lesionados e se prepara para partida do brasileirão!


14352 visitas - Fonte: GloboEsporte.com

Mais notícias do Corinthians

Notícias de contratações do Timão
Notícias mais lidas

Nenhum comentário. Seja o primeiro a comentar!

Enviar Comentário

Para enviar comentários, você precisa estar cadastrado e logado no nosso site. Para se cadastrar, clique Aqui. Para fazer login, clique Aqui ou Conecte com Facebook.

Últimas notícias

publicidade
publicidade
publicidade
publicidade