Chegou a hora de o Corinthians ter um técnico estrangeiro? Depois da queda de Sylvinho, a troca de nacionalidade no comando pode gerar um cenário inédito no clube desde 2005, quando o técnico argentino Daniel Passarella chegou ao Parque São Jorge. Treinaria então o time dos "galácticos" da MSI, fundo de investimentos que montou um elenco milionário (e com os argentinos Carlitos Tevez, Javier Mascherano e Sebá Domínguez).
Apesar da qualidade do time que terminaria aquele Brasileiro com o título, Passarella durou apenas 15 partidas, sendo demitido depois de uma goleada por 5 a 1 para o São Paulo no Pacaembu. O período curto foi suficiente para gerar uma miniatura de sua personalidade explosiva, gerando conflitos de relacionamento e tomando decisões que prejudicaram o ambiente do grupo.
Recluso para não brigar
O jeito impositivo foi um aliado de Passarella em sua brilhante carreira de zagueiro. Capitão da Argentina campeã da Copa do Mundo de 1978, ele desenvolveu também uma positiva trajetória como técnico, sendo campeão argentino com o River e comandando as seleções de Argentina e Uruguai. Foi o treinador da Argentina na Copa do Mundo de 1998, por exemplo.
Depois da má experiência no Corinthians, Passarella voltou ao River. Comandou a equipe em 2006 (eliminando inclusive o mesmo Corinthians da Libertadores daquele ano) e dedicou-se à política do clube de Núñez, sendo eleito presidente do River em 2009. Dois anos depois, com ele à frente da instituição, o clube caiu para a Série B da Argentina, o que gera uma pesada "condenação social" até hoje. Passarella está com 68 anos.
O ex-zagueiro mora no bairro de San Isidro, um dos principais destinos turísticos nas imediações de Buenos Aires. A calma que experimenta na região contrasta com a recepção nas ruas toda vez que percorre a capital portenha — ele praticamente não sai de casa para não ser xingado pelo rebaixamento, algo que o tira do sério e o faz brigar até fisicamente com os torcedores.
A coluna ouviu que até um de seus locais preferidos na capital, um lava-rápido perto do Monumental, onde Passarella gostava de lavar e exibir seus carrões, tem sido evitado pelo "Kaiser", apelido que carrega desde os tempos de zagueiro pelo estilo "xerifão". Sua última aparição pública foi no velório de Alejandro Sabella, seu ajudante no Corinthians, em dezembro de 2020.
Até mesmo os históricos papos com antigos jornalistas de seus tempos de jogador e técnico deixaram de existir. Passarella foi consultado pela equipe de comunicação do River para gravar depoimento para um filme sobre o título argentino de 1975 (que acabou com uma fila de 18 anos sem título), e a resposta foi um sonoro "não".
A coluna ouviu também de Óscar Ruggeri, ex-capitão da seleção argentina, companheiro de seleção de Passarella, e hoje comentarista da ESPN argentina, a seguinte história: "Estava caminhando por Carmelo, no Uruguai, e encontrei uma pessoa sozinha sentada debaixo de uma árvore. Pensei que era alguém passando mal e cheguei perto, e quando vi melhor, percebi que era Passarella. Não acreditei. Ficamos a tarde inteira conversando".
No ano passado, Passarella foi oferecido para ser técnico do Newell's Old Boys, mas sua pedida assustou a diretoria do clube de Rosário, que preferiu contratar o ex-goleiro Germán "Mono" Burgos.
Risco de ser preso
Evitar brigas com torcedores não é o único motivo da reclusão de Passarella. Sua passagem pela presidente do River gerou acusações de fraudes como tráfico de ingressos. O processo se arrasta na justiça argentina desde 2016.
O intrincado esquema de repasse de ingressos do clube à torcida organizada fez um juiz chamar 21 pessoas a depor. De empregados a diretores do River. Foi convocado também Daniel Passarella, presidente do clube de 2009 a 2013. Que optou pelo silêncio e não apareceu. Pior : perante o juiz, dirigentes atribuíram a ele a responsabilidade pelo esquema.
Carregado nos ombros da Argentina eufórica e vitoriosa na Copa de 1978, Passarella teve raríssimas aparições depois de deixar - pela porta dos fundos - a presidência do River. Veio ao Brasil para comentar a Copa no SporTV. E só. Algo impensável para quem o conhece e sabe de seu apreço por holofotes e microfones.
No Corinthians, até bolada na cara
Em 2017, contamos em detalhes as encrencas de Passarella no Corinthians. Autoritário ao extremo e sem a menor vontade de ser amigável, o argentino exigia sempre a última palavra e a autoafirmação de que era o comandante da tropa.
Tal falta de tato rendeu as famosas brigas com Roger e Fábio Costa, sacados do time titular com absoluto desprezo.
Um outro detalhe pouco conhecido diz bastante sobre o ambiente complicado daquele Corinthians.
Passarella terminava os treinos sempre fumando um cigarrinho e desafiando seus jogadores para uma partida de fute-tênis. Quando a prática era aberta à imprensa, ele se controlava. Sozinho com o grupo, virava uma fera (ou uma criança?).
Sem jamais aceitar perder, o "Kaiser" urrava quando ficava atrás no placar. Os compatriotas Tevez e Sebá Domínguez eram dois de seus adversários mais frequentes e logo perceberam que ''brincadeira'' era palavra que não existia.
A jogada preferida de Passarella era mandar a bola curta, perto da rede: e aproveitar a devolução improvisada para enfiar o pé — e soltar uma bomba na cara de quem estava no outro lado da rede.
É claro que a ignorância numa simples ''brincadeira'' apodreceu de vez a relação com os jogadores. A maluquice de Passarella nas tais disputas era tamanha que até treinando a seleção argentina ele machucou um jogador com esta ''brincadeira''.
Daniel arrancou sangue do nariz de Hernán Crespo em plena preparação para a Copa do Mundo de 1998 - esta história está no livro ''Él es Passarella'', do jornalista argentino Nicolás Distasio, obra de 528 páginas.
O "Kaiser" dirigiu o Corinthians só por dois meses. Em seus 15 jogos, sete vitórias, quatro empates e quatro derrotas. O substituto de Passarella foi Márcio Bittencourt. O Corinthians da MSI ainda teria o técnico Antônio Lopes no título daquele Brasileirão.
Corinthians, Passarela, treinador, timão