Dois estádios brasileiros estão com portões fechados porque seus torcedores levaram para dentro do campo rojões e sinalizadores que serviram de armas para atingir jogadores do próprio clube. Isso aconteceu na Vila Belmiro e em São Januário, de Santos e Vasco, respectivamente. Há duas semanas, o Estadão percorreu o caminho do torcedor que entra com objetos proibidos nas arenas de futebol, como rojões e armas brancas, ou qualquer outro material que possa ser atirado contra atletas rivais ou do mesmo time, treinadores ou dirigentes, como aconteceu no jogo entre Santos e Corinthians, na Vila, cujos incidentes provocaram a punição do clube mandante e do próprio estádio, que terá de receber partidas sem público.
A reportagem notou um jogo de empurra entre a polícia direcionada para a revista de torcedores e os clubes mandantes responsáveis pela organização do jogo, que respondem legalmente pela entrada e saída do torcedor comum, pela tranquilidade dos 90 minutos e também pela saída da arena. Ninguém admite falhas no processo. Todos defendem que o trabalho está sendo feito da melhor maneira possível.
Não é bem assim, como mostraram as cenas de vandalismo e agressividade nos dois estádios. A violência se tornou uma das poucas certezas durante toda a temporada do futebol brasileiro. Oito pessoas já morreram no futebol neste ano. Presença de torcedores munidos de rojões e sinalizadores tem sido comuns nas arenas, mesmo com as proibições dos órgãos competentes. De alguma forma, esse material, que se transforma em arma dependendo do resultado de uma partida, está nas arquibancadas e nas mãos de torcedores uniformizados.
No clássico da 11ª rodada do Brasileirão na Vila, rojões e sinalizadores atirados no gramado primeiramente em direção ao goleiro Cássio, do Corinthians, e depois contra os próprios atletas santistas, que perderam o jogo, interromperam o duelo antes do seu fim. Ninguém saiu ferido, mas poderia.
Em São Januário, no campo do Vasco, dias depois, aconteceu a mesma coisa, com rojões, bombas e sinalizadores após a derrota para o Goiás. Os alvos eram os próprios atletas vascaínos, cobrados por resultados ruins na temporada. Mas a cena mais perigosa ocorreu na Copa São Paulo de Futebol Júnior do ano passado, quando um torcedor do São Paulo invadiu o gramado com um canivete para ameaçar um rival do Palmeiras. Episódios como esses só são possíveis porque a segurança e a revista nos estádios são falhas e não funcionam.
Rojões e sinalizadores estão proibidos no futebol desde 2013, um ano antes da Copa do Mundo sediada no Brasil, e após a morte de um torcedor da cidade boliviana de Oruro por torcedores corintianos. Doze deles foram presos na Bolívia e soltos por atirarem sinalizadores contra os locais. Um garoto foi atingido no olho e morreu. Dois desses corintianos, dez anos depois, conforme reportagem do Estadão de duas semanas atrás, participaram das ameaças ao jogador Luan em um motel em São Paulo.
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Professor de segurança pública de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Rafael Alcadipani defende que um dos principais motivos para que essas falhas ocorram nas revistas é o número de pessoas que entram ao mesmo tempo nos estádios, faltando poucos minutos para o início da partida e, assim, "forçando" a liberação dos policiais.
"É muita gente para você controlar, de modo que é difícil ter um controle efetivo e rigoroso das pessoas que possam estar com esses materiais perigosos. Elas podem esconder nas peças de roupas em que a vistoria passa batida", diz Alcadipani. "Quem leva um rojão para dentro do estádio não está deliberadamente pensando em atingir o outro, mas no calor do jogo e do resultado, o explosivo pode virar uma arma."
Times como Palmeiras e Corinthians colocam 40 mil torcedores em todos os jogos em suas respectivas arenas. O São Paulo tem elevado esse número para mais de 50 mil porque o Morumbi é maior. "É muita gente para revistar", acrescenta.
O especialista em segurança pública também vê falta de interesse por parte do Estado para fazer punições aos agressores e torcedores encontrados com material proibido. "A gente não tem uma punição efetiva nem para os times nem para as pessoas que cometem crimes neste ambiente esportivo. Se observamos o caso do clássico de Liverpool, onde houve aquelas mortes, o que aconteceu foram punições pesadas para os clubes e os torcedores envolvidos. No Brasil, parece não ter o interesse do Estado em punir essas pessoas da forma em que deveriam ser punidas para evitar que isso aconteça de novo", diz.
Rafael Alcadipani, professor de segurança pública da FGV
"O clássico de Liverpool" a que o professor se refere aconteceu no dia 29 de maio de 1985, há mais de 30 anos, quando torcedores do time inglês e da Juventus, na final da Liga dos Campeões, no Estádio de Heysel, na Bélgica, se enfrentaram e causaram a morte de 39 pessoas, com mais de 600 feridos. A tragédia foi o ponto de virada na história do futebol europeu, exigindo que clubes, federações e governos adotassem novas regras de segurança e organização.
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Ao Estadão, quando a tragédia de Heysel completou três décadas, o vice-prefeito de Bruxelas e ex-secretário geral da Federação Belga de Futebol, Alain Courtois, foi enfático. "Desde então, tudo mudou no futebol." Estádios foram adaptados, capacidades reduzidas, locais de entradas e saídas aumentados e novas vistorias ao público passaram a ser feitas antes de cada pessoa se acomodar em seu devido lugar.
Por vezes, os torcedores brasileiros que entram com material proibido se valem de bolsas não revistadas devidamente e peças escondidas pelo corpo, até mesmo nos sapatos. A revista é rápida e simples nos portões dos estádios, onde policiais mulheres revistam as torcedoras também. São apalpados os bolsos, a cintura e as canelas. Não leva mais do que 10 segundos. O torcedor abre os braços e quem tem mochila, abre a bolsa rapidamente para não parar o fluxo. Não há detector de metal nem portas especiais como as de banco. Nem mais revistas antes de girar a catraca.
Também especialista da área de segurança de grandes eventos, João Vicente da Silva, coronel reformado e professor do centro de altos estudos de segurança da Polícia Militar de São Paulo, acredita que os clubes deveriam fortalecer o sistema dos seus respectivos estádios com investimentos em tecnologias para que não deixem passar material suspeito no momento da vistoria, tampouco pessoas procuradas pela Justiça.
"Quem tem de fazer isso é a estrutura privada. Os clubes arrecadam milhões de reais com os ingressos e eles deveriam pagar pela segurança dos jogos, de modo a montar estruturas com o mínimo de falhas, ou nenhuma falha. Você pode usar os exemplos dos aeroportos. Se em Cumbica (Aeroporto Internacional de Guarulhos) há um controle de 100 mil pessoas por dia sem que entre uma agulha sem ser percebida, por que no estádio isso também não pode ser feito? Se não entra um cortador de unhas nos aeroportos, como pode entrar sinalizadores, bombas e tudo mais nos campos de futebol?" compara o professor.
Estádios inteligentes já são uma realidade no futebol mundial. No Brasil, há alguns deles, mas muitos modus operandi do passado ainda são empregados com o torcedor, como as revistas. No Allianz Parque, do Palmeiras, o torcedor passa por um reconhecimento facial para entrar após a revista dos policiais.
Questionada pelo Estadão, a Polícia Militar do Estado de São Paulo informa que a responsabilidade pela segurança dos espectadores em eventos esportivos "é da organização esportiva responsável pelo evento, conforme o Art. 149 da Lei Geral do Esporte" e afirma que "se houver fundadas razões, o torcedor pode ser retirado da fila para uma busca pessoal minuciosa e que os torcedores que são encontrados portando materiais proibidos são identificados e têm seus dados encaminhados às autoridades competentes para as devidas punições".
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Três dos quatro principais clubes de São Paulo preferiram se manifestar por nota oficial, informando como se dá a vistoria do torcedor em seus respectivos mandos de jogos. Há uma combinação entre profissionais da PM e de seguranças privados, contratados pelo próprio clube.
Há reuniões entre a PM e membros de torcidas organizadas antes das partidas para alinhar o que a uniformizada levará para a arena, como instrumentos, bandeiras, faixas e adereços. No caso do Allianz, após a revista da PM, o torcedor é obrigado a se identificar na biometria facial.
Reuniões prévias com torcedores na Vila Belmiro também foram apontadas como procedimento padrão, dias e horas antes de cada partida do Santos. Os uniformizados são liberados sem revista para entrar no estádio com material de festa e promocional. Nenhum dos clubes ouvidos pelo Estadão apontou a necessidade de detectores de metais nos portões de acesso. O São Paulo não se manifestou.
De acordo com o Corinthians, a revista nos membros das torcidas organizadas é de responsabilidade da PM e o clube diz trabalhar "em projetos para o aprimorar a segurança para acesso do torcedor ao estádio". Não há detectores de metais dentro da Neo Química Arena.
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Segundo o Palmeiras, a revista nos torcedores no Allianz Parque é feita pelo 2º Batalhão de Choque da Polícia Militar do Estado de São Paulo logo quando os portões de acesso ao estádio são abertos. O clube também afirmou que alguns dias antes de cada jogo, é realizada uma reunião preparatória entre representantes das torcidas e a Polícia Militar, para que as organizadas enviem um ofício ao 2º Batalhão com a lista dos materiais que planejam levar ao estádio, cabendo à PM autorizá-los ou não. Lembrou também que o estádio possui acessos com biometria facial.
O Santos disse que o acesso de todos os materiais de torcidas organizadas "se faz com antecedência de 1h30 do início da partida" e que "são comunicadas em reuniões preparatórias com um ou dois dias da data do jogo todas as manifestações no estádio, com participação dos responsáveis de todas as torcidas organizadas do time".
O clube mencionou que "o uso de detector de metais não se faz necessário na Vila, uma vez que a própria revista pessoal identificaria a posse de objetos deste porte". Informou também que a revista é feita minuciosamente em todos os torcedores e setores, seja pelo clube (segurança privada) ou pela Polícia Militar e avisou que está em curso uma investigação para apurar como estes materiais (rojões e sinalizadores) entraram no estádio naquele dia. O clube ressaltou que "está em desenvolvimento planos estratégicos para reforçar a segurança dentro do gramado para que se evite invasões."
Não é só dentro dos estádios que a segurança dos torcedores parece estar comprometida e ameaçada. Episódios recentes mostram falhas e flagram pessoas portando material que pode ferir rivais antes de entrar nas arenas. O caso mais recente ocorreu na partida entre Palmeiras x Flamengo pela 14ª rodada do Campeonato Brasileiro, quando torcedores de ambas as equipes entraram em confronto e uma torcedora foi atingida no pescoço por estilhaços de vidro de uma garrafa. Gabriela Anelli, de 23 anos, morreu dois dias depois. As investigações ainda não chegaram ao autor do crime.
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