O francês Hervé Renard, da Arábia Saudita, é o técnico sensação da Copa do Mundo 2022 até o momento. Afinal, ele deu algumas das melhores entrevistas do Mundial, levou seu time à surpreendente vitória por 2 a 1 sobre a favorita Argentina e ainda deu a bronca mais marcante do torneio até agora, como mostrou a ESPN na última quinta-feira (24).
Dono de títulos de Copa Africana de Nações com Zâmbia (2012) e Costa do Marfim (2015), Renard nunca teve grande destaque dirigindo clubes. Ainda assim, o comandante foi decisivo para salvar a carreira de um jogador brasileiro.
Trata-se do zagueiro Carlão, revelado pelo Corinthians e que trabalhou com o francês no Sochaux, entre 2013 e 2014.
Em entrevista ao ESPN.com.br, o defensor se emocionou ao lembrar o momento difícil que viveu na equipe da França, tendo pensado em abandonar o futebol. Mesmo sem conhecer Carlão, porém, Hervé Renard fez de tudo para resgatá-lo.
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Esse cara foi o melhor treinador que tive na carreira. Como ser humano, é sensacional. Quando ele chegou no clube, em outubro de 2013, eu tinha parado de jogar, porque estava deprimido. Foi ele quem me trouxe de volta", contou o ex-corintiano, que disputou a última temporada pelo Ituano.
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Eu nunca tinha trabalhado ou visto o Renard, mas o que ele fez para me ajudar foi coisa de ser humano bom mesmo, de querer ajudar o próximo. Ele foi fundamental para eu estar jogando futebol até hoje", completou.
Carlão, então, detalhou a história de como o treinador lhe incentivou, passo a passo, a retornar aos gramados.
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Eu tinha decidido parar de jogar dois dias antes dele ser contratado. Daí ele chegou no clube e me ligou. Pensei que ia me dar minha liberação para voltar ao Brasil, porque eu ia parar de jogar. Pensei: 'Eles vão querer jogadores novos, e eu estou aqui ocupando vaga de extracomunitário'. Fui preparado para ter essa conversa e ir embora", relatou.
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Só que a conversa foi totalmente diferente. Ele me perguntou da minha vida pessoa, falou sobre quais eram os objetivos dele para o clube. Depois da conversa, ele perguntou: 'O que você vai fazer agora? Vamos treinar um pouco?'. Eu respondi: 'Não vou fazer nada, mas não vou treinar'. Ele insistiu: 'Então vamos treinar'", rememorou.
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Eu estava parado há cinco meses, tinha largado mesmo. Depois do primeiro treino, ele falou: 'Você vai ficar aqui no Sochaux'. Juntou todas as bolas na meia-lua e falou: 'Vamos brincar de ficar chutando na trave'", continuou.
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Enquanto a gente chutava, ele perguntou da minha vida. Fomos conversando por mais de uma hora. No final, ele perguntou: 'Amanhã você vem'?. Eu falei que não. Mas ele insistiu: 'O que você vai fazer?'. Falei que nada. E ele disse de novo: 'Então você vem'. Treinei por mais três dias e ele falou que eu jogaria no final de semana. Eu contestei: 'Como vou jogar de titular se não atuo há cinco meses? Não tenho condição nenhuma de jogo!'", exclamou.
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Então, ele me falou: 'Amanhã de manhã te ligo e você me diz se vai para o jogo'. Eu estava crente que responderia que não, porque não me sentia confortável para jogar. Só que, na hora que ele me ligou, acabei falando 'sim'. Daí, ele não respondeu nada, ficou em silêncio... Achei que a ligação tinha caído, fiquei falando 'alô, alô, alô'... Passou um tempo, ele falou, com a voz emocionada: 'Até de tarde!'", contou, emocionado.
A reestreia de Carlão não poderia ter sido melhor.
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Então, eu treinei forte, fui para o jogo e ganhamos! Depois disso, em todos os treinos ele me puxava. Virei o capitão dele na equipe. O Renard me trouxe de volta mentalmente para o futebol, porque eu não tinha mais vontade de jogar", salientou.
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Quando acabou a temporada, fui agradecê-lo por me resgatar. Foi muito legal, e ele ficou bastante emotivo com a situação", finalizou.
"Treinos intensos e curtos"
Além da parte psicológica, Carlão também fez muitos elogios ao trabalho de campo de Hervé Renard.
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Como técnico, foi o melhor que tive em termos de treinamento. Todos os dias eram treinos intensos, curtos e diferentes, de no máximo 50 minutos", lembrou.
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Ele cobrava todos os detalhes possíveis, e também muito comportamento mental, o que deixava o time todo fortalecido. Sempre queria que todos entendessem um pouco de tática", seguiu.
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É um cara muito diferenciado. Não é à toa que ele tem dois títulos de Copa Africana de Nações por países diferentes, e não é à toa que está na Copa do Mundo agora", complementou.
O zagueiro ainda exaltou a estratégia do treinador francês para bater a Argentina na estreia do Mundial, na última terça-feira (22).
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Em termos de jogo, ele adiantou as linhas quase no meio-campo com a Arábia, o que foi muito corajoso. Você jogar contra a Argentina com a linha quase no meio-campo não é algo normal para uma equipe que todos sabem que é inferior tecnicamente", argumentou.
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Por isso eu digo que ele é um cara tático e muito corajoso. Não muda o time se vai jogar contra um adversário de muita qualidade ou pouca, sempre mantém a postura. Cobrava sempre da gente a concentração na parte defensiva. É um cara apaixonado pelo jogo, e exige que o atleta seja muito profissional", encerrou.
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