24/6/2022 08:19

Fazendo as contas: Timão busca maneiras de equilibrar as dívidas sem afetar o futebol

No primeiro ano de Duilio Monteiro Alves, melhor notícia é que a dívida de R$ 1 bilhão parou de aumentar. Apesar de avanços no marketing e em campo, projeto ainda não se provou sustentável

No Grande Círculo de fevereiro deste ano, o apresentador Milton Leite encerrou o programa querendo saber de Duilio Monteiro Alves o que ele gostaria de ouvir do pai e do avô ao fim de seu mandato, em 2023, como presidente do Corinthians. O que deixaria os corintianos orgulhosos?




– Não pensando em título, seria escutar que a gente conseguiu colocar a parte financeira em ordem, que o Corinthians não tem mais nenhum tipo de dificuldade para honrar suas dívidas. Não que a gente tenha a dívida paga, porque isso é praticamente impossível de acontecer nos próximos dois anos, mas que o próximo presidente pegue o clube com a parte financeira mais saudável – respondeu o dirigente.

Duilio disse várias vezes, no decorrer da entrevista, que os números do balanço mais recente, referente a 2021, mostrariam que o trabalho começou a dar resultados. O dirigente tem reestruturado o clube desde que assumiu, com apoio de consultorias como Falconi e KPMG.

O ge passa pelas demonstrações contábeis mais recentes, citadas por Duilio na época da entrevista, para conferir a situação das finanças alvinegras. Esta reportagem faz parte da série anual sobre as finanças do futebol brasileiro, com números correspondentes ao ano passado.

Panorama
O olhar mais abrangente sobre as contas do Corinthians mostra um quadro preocupante. A proporção entre faturamento (tudo o que foi arrecadado em cada ano) e endividamento (o que havia a pagar no último dia de cada exercício) mostra dificuldades para honrar compromissos.

Ainda que o clube do Parque São Jorge tenha elevado a sua arrecadação em 2021, com alguns motivos para felicidade, as dívidas continuam em um patamar dificílimo de lidar – tanto em seu valor bruto, R$ 1 bilhão, quanto se poderá descobrir por meio do detalhamento.

Um detalhe: a diretoria alvinegra afirma que reduziu seu endividamento no ano passado de R$ 949 milhões para R$ 912 milhões. A diferença nos números se explica pelo cálculo adotado. Na série do ge, a dívida equivale ao total de obrigações, menos o montante disponível em caixa.

Receitas
Fato comum a todos os clubes, o Corinthians registrou direitos de transmissão acima do que teria em circunstâncias normais, por causa da pandemia. Como o Campeonato Brasileiro de 2020 só terminou em 2021, parte relevante de seus pagamentos foi adiada para o balanço seguinte, o que atrapalha um pouco a leitura.

As consequências dessa contabilidade são variadas. É preciso avaliar o crescimento da receita de transmissão com cautela, por exemplo, porque os últimos dois anos estão prejudicados por essa anomalia. Além disso, por ter um valor atípico no faturamento, o resultado líquido (lucro ou prejuízo) do ano foi puxado para cima.

Ainda nessa linha, que inclui premiações e pagamentos condicionados à performance, o Corinthians perceberá em breve o resultado dos investimentos recentes para qualificar o futebol. Em 2021, o clube conseguiu o quinto lugar no Brasileirão e a vaga na Libertadores. Financeiramente, as duas competições renderão muito mais em 2022.

No departamento comercial e de marketing, há um destaque positivo. No ano passado, o Corinthians quase dobrou a arrecadação com patrocínios e licenciamentos, em relação ao número da temporada anterior, e disparou como um dos clubes que mais faturam nessa linha.

Só há um asterisco em relação aos patrocínios. Nessa receita, o clube contabilizou cerca de R$ 18 milhões referentes ao contrato com a Taunsa. Porém, a empresa não efetuou os pagamentos e, hoje, está sendo cobrada pela diretoria alvinegra. Ou seja, o valor aparece corretamente no faturamento, mas não chegou à conta bancária, pois houve calote.

Nas receitas ligadas à torcida, como bilheterias e sócios-torcedores, o clube ainda é prejudicado pela pandemia, pois não pôde receber torcedores na Neo Química Arena em boa parte de 2021.

Com o passar da pandemia e também após reestruturação do negócio do estádio – que envolve renegociação de dívida com a Caixa e destinação dessas receitas –, abre-se a necessidade para que o Corinthians eleve muito o seu desempenho nessa área. Com a segunda maior torcida do país, o clube está defasado em relação aos principais adversários.

Por fim, nas transferências de atletas, houve redução significativa em relação ao ano anterior. A associação havia conseguido R$ 126 milhões líquidos (após deduções de participações de terceiros e comissões) em 2020, e este valor caiu para R$ 27 milhões em 2021.

Orçado versus realizado
Compara-se orçamento (com projeções feitas pela própria diretoria) e balanço (com números efetivamente alcançados) para que se possa entender como foi o ano, do ponto de vista financeiro.

Entre as receitas, o Corinthians sobressaiu no marketing, com R$ 44 milhões acima do que esperava conseguir, e teve frustração nas vendas de jogadores, com R$ 68 milhões a menos. No fim das contas, o faturamento acabou próximo do que estava no orçamento.

Por parte das despesas, pinçamos a mais importante para a performance dentro de campo: a folha salarial. Trata-se da soma de salários, direitos de imagem, encargos trabalhistas, direitos de arena e deduções, itens que, combinados, apontam a remuneração do futebol do clube.

A comparação com anos anteriores precisa ser feita com cautela, pois em 2020 o clube reduziu temporariamente os pagamentos aos atletas por força da pandemia. Portanto, o quadro precisa constar valores dos anos anteriores, sem essa particularidade, para apontar a trajetória.

2017 – R$ 179 milhões
2018 – R$ 201 milhões
2019 – R$ 245 milhões
2020 – R$ 204 milhões
2021 – R$ 234 milhões
Ainda em relação ao quadro, o resultado financeiro aponta itens financeiros e não-esportivos, principalmente juros sobre dívidas.

E o resultado líquido representa a última linha da demonstração de resultado, com superavit (lucro) ou deficit (prejuízo). O Corinthians fechou no azul por pouco, mas lembre-se: receitas que pertenceriam a 2020 foram registradas atipicamente no ano de 2021. Teria havido prejuízo em um exercício sem esses impactos dos tempos da pandemia.

Dívidas
Na análise do endividamento, os números gerais ainda são assustadores. O Corinthians arredondou a sua dívida em R$ 1 bilhão. Ainda que o valor total tenha estabilizado e que haja algumas boas notícias, como renegociações bem-sucedidas, o cenário ainda é bastante desafiador.

Ao classificar essas obrigações de acordo com o vencimento, encontram-se R$ 564 milhões a pagar no curto prazo, ou seja, em menos de um ano. Esses credores esperam receber do clube em 2022.

O Corinthians não chega a tanto em faturamento e ainda tem todos os seus custos a pagar, portanto é seguro dizer que será impossível cumprir com todos os compromissos. A solução será renegociar prazos, buscar dinheiro emprestado, rolar a dívida, para que ela seja paga depois.

Diante das necessidades financeiras, o Corinthians tem girado dinheiro em empréstimos. Só em 2021, ingressaram R$ 158 milhões em novos créditos, enquanto pagamentos de empréstimos anteriores somaram R$ 181 milhões. Este é o trabalho que cabe ao departamento financeiro para organizar o fluxo de caixa e dar conta das demandas, dentro do possível.


Nessa parte bancária, o clube deve a instituições financeiras como Daycoval, BMG, Bradesco e Santander. E também tem pendências com empresários da bola, como Giuliano Bertolucci, Carlos Leite e André Cury. Giuliano foi o mais benevolente ao topar pagamento só após 2023.

Em relação a impostos não pagos no passado, a diretoria alvinegra firmou um novo acordo com o governo, por meio do Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos (Perse). No total, foram renegociados R$ 187 milhões. A reorganização desses pagamentos era importante para aliviar as cobranças no curto prazo e alongá-las.

Além dessa renegociação mais recente, ainda existem tributos parcelados via Profut. A soma de todas essas quantias passa de R$ 400 milhões, parte mais pesada da dívida corintiana.

Na área trabalhista, o Corinthians deu um salto. O valor devido em salários e encargos trabalhistas ainda é significativo, mas direitos de imagem foram reduzidos em mais de R$ 74 milhões entre 2020 e 2021. Reduzir essa dívida tem impacto direto no vestiário, pois são os jogadores do elenco principal que estão do outro lado da mesa de negociação.

Por fim, no gráfico abaixo, a coluna "outros" reúne fornecedores de produtos e serviços, clubes dos quais a diretoria comprou jogadores em parcelas e agentes. O valor é muito alto e vem crescendo, ano a ano.

Futuro
Duilio Monteiro Alves assumiu a presidência do Corinthians em 2021. A herança de seu antecessor era negativa em vários aspectos. Andrés Sanchez vendeu os naming rights e avançou na reestruturação do negócio do estádio, mas, no clube, deixou a dívida subir a um patamar perigosíssimo e teve decisões e resultados contestáveis em campo. Duilio o acompanhou em toda essa jornada, como seu diretor de futebol.

No primeiro ano como presidente, Duilio armou uma estratégia que é corriqueira na história do futebol e nem sempre funciona. Ele faria investimentos para qualificar o time, na expectativa de que bons resultados ajudassem a puxar o faturamento, que por sua vez melhoraria a capacidade de pagamento das dívidas. Em teoria, funcionaria assim.


Essa filosofia foi colocada em prática com reforços como Paulinho, Willian, Giuliano e Róger Guedes. Nem todos custaram para ser contratados, mas todos vieram com salários e imagens altos. Por mais que dispensas tenham ajudado a compensá-los, a folha está em R$ 234 milhões, quinta maior do país. A estratégia também tem custos.

Na prática, o que se vê após 2021 é que a esfera esportiva realmente melhorou. O quinto lugar no Campeonato Brasileiro elevou o repasse financeiro, na parte vinculada à performance, e colocou o clube na Libertadores de 2022, com premiações em dólar que fazem diferença no orçamento. Financeiramente, esse projeto precisa se provar.

Olhando para todos os números com otimismo, é possível concluir que há mérito em não deixar a crise piorar ainda mais. E só. O Corinthians não conseguiu reduzir seu endividamento, não conseguiu melhorar o seu perfil, em relação ao prazo para pagamento, e nem contabilizou uma receita alta suficiente para que a recuperação financeira comece.

Crer que as coisas vão bem como estão é otimismo demais. Cedo ou tarde, com cobranças de credores, acompanhadas de ações judiciais, execuções e bloqueios de verbas, o clube precisará encarar a realidade. Jogadores da base precisarão ser vendidos, ou sairá gente relevante do time titular, ou haverá dificuldade para manter salários em dia. De um jeito ou de outro, o desempenho em campo estará em risco.

Duilio ainda tem tempo. Ele chega agora à metade de sua administração, tendo tornado públicos os resultados de apenas uma temporada, na qual havia desafios adicionais por causa da pandemia. Se o dirigente quiser cumprir o que disse a Milton Leite naquela entrevista, chegar ao fim de seu mandato com o Corinthians reorganizado e saudável, precisará fazer anos extraordinários, fora de campo, em 2022 e 2023.



Corinthians, 2022, finanças, Duilio



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Kleber Vellenev     

Devia ter pensado isso antes de contratar os velhos e cansados Renato Augusto e Paulinho! Milionários.

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