17/4/2015 16:32
Antes do jogo entre Corinthians e San Lorenzo - e também depois, por conta do 0 a 0 - parte da torcida do São Paulo começou a se manifestar com a dúvida sobre se rival poderia facilitar a vida do San Lorenzo para ajudar na eliminação do Tricolor. Na coletiva após o jogo, o técnico corintiano Tite se exaltou muito ao negar veementemente essa possibilidade. Acho que ele não precisa sair do sério, mas estou com ele. Até acho que o torcedor tem o direito de pensar o que quiser, e essa hipótese absurda dá boas discussões na mesa do boteco. Mas é inadmissível que alguém da imprensa leve essa tese adiante.
É simples: o dia que eu admitir que um time entrega um jogo de propósito para prejudicar um rival, eu vou trabalhar em outro setor do jornalismo. O que admito é: um time que não tenha nenhum interesse em jogo, classificado ou eliminado, colocar um time misto ou reserva diante de um adversário cuja vitória vá prejudicar um terceiro clube. Ok, cada um escala a formação que quer, mas esta formação tem de entrar e jogar para ganhar. O "entregar o jogo" é um fato gravíssimo, que mancharia ou acabaria com a carreira de muita gente - lembrando que, mesmo que alguém aventasse esse absurdo, como garantir um segredo entre 18 ou 20 envolvidos?
Outras hipóteses controversas que não há como impedir: regulamentos malucos que levem a ser interessante perder para pegar um caminho mais fácil na fase seguinte, ou para fugir de um time "x" ou "y" na fase seguinte. Como impedir? Como criticar? O time, nesse caso, não está objetivando o prejuízo de ninguém específico, apenas o seu próprio benefício, e ninguém pode ser criticado, a meu ver, por buscar o melhor caminho para ser campeão. Caso em que é acusada a então Alemanha Ocidental, campeã do mundo em 1974, depois de ter perdido na última rodada da primeira fase daquele Mundial para a Alemanha Oriental, para supostamente fugir do grupo de Brasil, Holanda e Argentina.
Ou ainda: dois times se enfrentam, o empate classifica ambos e a derrota elimina alguém. Como impedir o "jogo de compadres"? Também nesse caso, o objetivo principal é o próprio benefício, a própria classificação. Como obrigar alguém a correr o risco de perder, se todos no campo querem a mesma coisa?
Sempre que se fala isso lembro do exemplo clássico e inesquecível de grandeza dado pelo Vasco em 1992. Para quem não era nascido, aquele Brasileiro tinha, na fase final, dois quadrangulares cujos vencedores decidiriam o campeonato. Em um grupo, na última rodada, o Santos estava eliminado, o Vasco precisava vencer o São Paulo e o Flamengo perder do Santos, o São Paulo precisava vencer o Vasco, e o Flamengo precisava vencer o Santos e o São Paulo perder do Vasco.
Em São Januário, o Vasco fazia sua parte e vencia o São Paulo. Mas no Maracanã, o Flamengo fazia 3 a 1 no Santos. Com isso, dava Flamengo na final. Com o Vasco sem chance, a torcida pedia que o time entregasse o jogo ao São Paulo, para dar a vaga ao Tricolor e tirar da final o rival Flamengo. Perfeito, irrepreensível, torcedor é isso mesmo, paixão pura, racionalidade zero, nada a criticar. Mas o time do Vasco jogou como deveria, cumpriu seu papel, fez 3 a 0 no São Paulo de Telê Santana e deu um empurrãozinho para o Fla ir à final.
É isso. Futebol é isso. Em campo, ética, respeito, honestidade. Fora dele, paixão, discussão, polêmica. Eu ainda acredito nisso tudo.
P.S. Só mais uma coisinha, que eu sempre digo quando alguém reclama o que os tricolores estão reclamando: se o seu time tivesse vencido o Corinthians, se tivesse feito o que lhe cabia, não estaria dependendo dos outros. Se está dependendo dos outros, tem de ficar calado.
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BLOG Tite não precisa se exaltar, mas tem razão
Antes do jogo entre Corinthians e San Lorenzo - e também depois, por conta do 0 a 0 - parte da torcida do São Paulo começou a se manifestar com a dúvida sobre se rival poderia facilitar a vida do San Lorenzo para ajudar na eliminação do Tricolor. Na coletiva após o jogo, o técnico corintiano Tite se exaltou muito ao negar veementemente essa possibilidade. Acho que ele não precisa sair do sério, mas estou com ele. Até acho que o torcedor tem o direito de pensar o que quiser, e essa hipótese absurda dá boas discussões na mesa do boteco. Mas é inadmissível que alguém da imprensa leve essa tese adiante.
É simples: o dia que eu admitir que um time entrega um jogo de propósito para prejudicar um rival, eu vou trabalhar em outro setor do jornalismo. O que admito é: um time que não tenha nenhum interesse em jogo, classificado ou eliminado, colocar um time misto ou reserva diante de um adversário cuja vitória vá prejudicar um terceiro clube. Ok, cada um escala a formação que quer, mas esta formação tem de entrar e jogar para ganhar. O "entregar o jogo" é um fato gravíssimo, que mancharia ou acabaria com a carreira de muita gente - lembrando que, mesmo que alguém aventasse esse absurdo, como garantir um segredo entre 18 ou 20 envolvidos?
Outras hipóteses controversas que não há como impedir: regulamentos malucos que levem a ser interessante perder para pegar um caminho mais fácil na fase seguinte, ou para fugir de um time "x" ou "y" na fase seguinte. Como impedir? Como criticar? O time, nesse caso, não está objetivando o prejuízo de ninguém específico, apenas o seu próprio benefício, e ninguém pode ser criticado, a meu ver, por buscar o melhor caminho para ser campeão. Caso em que é acusada a então Alemanha Ocidental, campeã do mundo em 1974, depois de ter perdido na última rodada da primeira fase daquele Mundial para a Alemanha Oriental, para supostamente fugir do grupo de Brasil, Holanda e Argentina.
Ou ainda: dois times se enfrentam, o empate classifica ambos e a derrota elimina alguém. Como impedir o "jogo de compadres"? Também nesse caso, o objetivo principal é o próprio benefício, a própria classificação. Como obrigar alguém a correr o risco de perder, se todos no campo querem a mesma coisa?
Sempre que se fala isso lembro do exemplo clássico e inesquecível de grandeza dado pelo Vasco em 1992. Para quem não era nascido, aquele Brasileiro tinha, na fase final, dois quadrangulares cujos vencedores decidiriam o campeonato. Em um grupo, na última rodada, o Santos estava eliminado, o Vasco precisava vencer o São Paulo e o Flamengo perder do Santos, o São Paulo precisava vencer o Vasco, e o Flamengo precisava vencer o Santos e o São Paulo perder do Vasco.
Em São Januário, o Vasco fazia sua parte e vencia o São Paulo. Mas no Maracanã, o Flamengo fazia 3 a 1 no Santos. Com isso, dava Flamengo na final. Com o Vasco sem chance, a torcida pedia que o time entregasse o jogo ao São Paulo, para dar a vaga ao Tricolor e tirar da final o rival Flamengo. Perfeito, irrepreensível, torcedor é isso mesmo, paixão pura, racionalidade zero, nada a criticar. Mas o time do Vasco jogou como deveria, cumpriu seu papel, fez 3 a 0 no São Paulo de Telê Santana e deu um empurrãozinho para o Fla ir à final.
É isso. Futebol é isso. Em campo, ética, respeito, honestidade. Fora dele, paixão, discussão, polêmica. Eu ainda acredito nisso tudo.
P.S. Só mais uma coisinha, que eu sempre digo quando alguém reclama o que os tricolores estão reclamando: se o seu time tivesse vencido o Corinthians, se tivesse feito o que lhe cabia, não estaria dependendo dos outros. Se está dependendo dos outros, tem de ficar calado.
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Postado por fyamma fernandes nogueira - 4074 visitas - Fonte: GE
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