O Corinthians pagou aproximadamente R$ 6,9 milhões para a empresa Incentiva, responsável pelo programa Fiel da Sorte, mas agora tenta descobrir se todos os sorteios prometidos aos torcedores realmente aconteceram e se os prêmios foram entregues.
O caso veio à tona depois que a atual diretoria decidiu rescindir o contrato com a empresa, alegando descumprimento de obrigações. A partir daí, o clube passou a investigar o que foi feito, o que deixou de ser feito e se houve prejuízo aos cofres do Corinthians.
O Fiel da Sorte foi criado como um benefício para os membros do programa Fiel Torcedor.
A ideia era simples: o torcedor pagava a mensalidade do programa e recebia a chance de participar de sorteios de prêmios, produtos oficiais e experiências relacionadas ao Corinthians.
Um dos principais atrativos eram as chamadas rabiscadinhas, uma espécie de raspadinha digital. Cada sócio tinha direito a 12 por mês, sem pagar nada além da mensalidade do Fiel Torcedor.
No começo, o Corinthians divulgava o programa em suas redes sociais, no aplicativo Universo SCCP e também em ações realizadas na Neo Química Arena.
As divulgações do Fiel da Sorte praticamente desapareceram dos canais oficiais do Corinthians a partir de abril de 2024.
O clube deixou de publicar informações sobre os sorteios, os ganhadores e os prêmios oferecidos. Mesmo assim, os pagamentos para a empresa Incentiva continuaram acontecendo normalmente.
Em outras palavras, o Corinthians parou de divulgar o programa, mas continuou pagando pelo serviço.
Agora, a diretoria quer saber se os sorteios continuaram sendo realizados, quem ganhou os prêmios e se todos eles foram realmente entregues.
Segundo documentos obtidos pelo ge, o Corinthians realizou 34 pagamentos mensais para a Incentiva entre agosto de 2023 e abril de 2026.
O valor total chegou a aproximadamente R$ 6,9 milhões.
A primeira parcela foi de R$ 124.488,75. Já a última, paga em abril de 2026, chegou a R$ 343.522,50.
O aumento aconteceu porque o contrato previa que a empresa receberia R$ 3,75 por mês por cada novo sócio que aderisse ao Fiel Torcedor depois do início da parceria.
Isso significa que, quanto mais o número de associados aumentava, maior também ficava o valor pago pelo Corinthians.
O principal problema é que o clube não possui todas as informações necessárias para confirmar se o serviço foi prestado corretamente.
A diretoria quer descobrir:
O Corinthians procurou a OneFan, empresa responsável pelo sistema do Fiel Torcedor e pelo aplicativo Universo SCCP, para tentar localizar essas informações.
Porém, a OneFan informou que não possuía o controle sobre os ganhadores e a entrega dos prêmios. Esses dados ficavam sob responsabilidade da própria Incentiva.
Outro ponto que aumentou as dúvidas é que a última autorização concedida pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Governo Federal para sorteios envolvendo a empresa venceu em setembro de 2024.
Mesmo assim, um relatório recebido pelo Corinthians indica que as rabiscadinhas teriam continuado disponíveis até 19 de dezembro de 2025.
A Incentiva também afirma que continuou prestando serviços até o final de maio de 2026.
Questionado sobre como poderiam ter acontecido entregas sem uma nova autorização governamental para sorteios, o advogado da empresa disse não saber se houve sorteio e afirmou que podem ter ocorrido outras ações para fidelização dos sócios.
O contrato com a Incentiva foi assinado durante a gestão do ex-presidente Duilio Monteiro Alves.
Segundo ele, a parceria tinha como objetivo aumentar o número de sócios do Fiel Torcedor e criar novas receitas para o Corinthians.
Duilio afirmou que, além dos sorteios e das rabiscadinhas, a empresa também participava da criação de conteúdos exclusivos e de ações de interação dentro do aplicativo Universo SCCP.
De acordo com o ex-presidente, a Incentiva assumia o compromisso de adquirir os prêmios e as experiências oferecidas aos torcedores.
Augusto Melo, que assumiu a presidência do Corinthians depois de Duilio, afirmou que não conhecia os detalhes do contrato e que nunca tratou diretamente do Fiel da Sorte.
Mesmo durante sua gestão, os pagamentos para a empresa continuaram sendo realizados.
A atual diretoria, comandada por Osmar Stabile, decidiu rescindir o contrato com a Incentiva.
O Corinthians afirma que houve descumprimento de obrigações por parte da empresa e pede uma indenização de R$ 3 milhões pelo encerramento antecipado do vínculo, que tinha duração prevista até 2028.
O clube também informou que os pagamentos realizados desde junho de 2025 seguiram os trâmites legais e contábeis internos.
As duas últimas notas fiscais emitidas pela Incentiva não foram pagas.
A Incentiva afirma que não foi oficialmente comunicada sobre a rescisão do contrato.
Segundo a empresa, houve apenas uma notificação extrajudicial do Corinthians com perguntas sobre a parceria. A Incentiva diz que respondeu ao clube, mas não recebeu retorno.
A empresa também sustenta que continuou prestando serviços até o final de maio de 2026.
Sobre a falta de novas autorizações para sorteios, a Incentiva afirma que dependia da assinatura e da entrega de documentos pelo próprio Corinthians.
Segundo a defesa da empresa, o clube não teria enviado os documentos necessários para que um novo pedido fosse apresentado ao Governo Federal.
A Incentiva foi criada em agosto de 2021 e tem o Corinthians como único cliente conhecido.
A empresa possui capital social de apenas R$ 50 mil e passou por várias mudanças de sócios ao longo dos últimos anos.
Ela começou sob o comando de Rodrigo Gilotti, depois recebeu novos investidores e, em setembro de 2024, foi vendida a João Augusto de Queiroga Vanderley.
O atual proprietário não tinha experiência anterior conhecida no setor de sorteios, mas sua defesa afirma que a compra foi uma oportunidade de negócio por causa do contrato já existente com o Corinthians.
A sede da empresa também mudou algumas vezes e atualmente está registrada em um escritório comercial na região de Alphaville.
Outro detalhe chama a atenção.
Enquanto a Incentiva recebia centenas de milhares de reais por mês, o custo dos prêmios autorizados era bem menor.
Em uma das campanhas realizadas entre junho e setembro de 2024, por exemplo, a empresa se comprometeu a sortear 65 itens e experiências que, juntos, tinham valor aproximado de R$ 7 mil.
Isso não significa, por si só, que houve irregularidade, porque o contrato poderia envolver outros serviços, como tecnologia, produção de conteúdo e ações dentro do aplicativo.
Mesmo assim, a diferença entre os valores pagos e o custo dos prêmios é um dos pontos que deverão ser analisados durante a investigação.
O Corinthians conduz uma apuração interna para entender exatamente o que aconteceu durante os quase três anos de contrato.
O clube também estuda pedir uma perícia judicial para calcular o tamanho de um possível prejuízo e definir quanto poderia cobrar da empresa.
A diretoria pretende verificar documentos, notas fiscais, registros de ganhadores e comprovantes de entrega dos prêmios.
Até o momento, porém, não existe decisão judicial nem conclusão definitiva de que houve fraude ou qualquer outro crime.
O que existe é uma investigação sobre um contrato que custou quase R$ 7 milhões e que, durante longo período, deixou de ser divulgado aos próprios torcedores.
Imagine que você contrata uma empresa para fazer sorteios todos os meses.
Durante um tempo, os sorteios aparecem e são divulgados normalmente.
Depois, ninguém mais vê os anúncios, os ganhadores ou os prêmios.
Mesmo assim, você continua pagando centenas de milhares de reais todos os meses.
Anos depois, decide perguntar se os sorteios realmente aconteceram, mas não encontra os comprovantes.
É exatamente isso que o Corinthians está tentando esclarecer agora.
E você, torcedor? O Corinthians fez certo ao rescindir o contrato e abrir uma investigação? O clube deve tentar recuperar parte dos R$ 6,9 milhões pagos? Deixe sua opinião nos comentários.
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