Um alvinegro que atende pelo nome Palmeiras. A combinação é curiosa por reunir nome e cores de dois dos maiores rivais do futebol brasileiro. Isso pode parecer confuso para aqueles que estão na espera do clássico entre Palmeiras e Corinthians, nesta segunda-feira, às 20h, na Neo Química Arena, pelo Brasileirão, mas não há qualquer constrangimento ou equívoco para quem é de São João da Boa Vista, cidade do interior de São Paulo, localizada a cerca de 200 km da capital do estado. O Palmeiras Futebol Clube, fundado em 12 de janeiro de 1924 na cidade paulista e conhecido como “Palmeirinha”, já nasceu com as cores preto e branco e quando o xará da capital ainda se chamava Palestra Itália. O nome, portanto, não faz referência ao Verdão, e sim a outro clube da capital do estado. – Como em São Paulo o grande destaque era a Associação Atlética das Palmeiras, que ganhava praticamente tudo nas décadas de 1910 e começo da década de 1920, o nome Palmeiras veio da Associação Atlética das Palmeiras, que era um clube com uniforme preto e branco – conta o historiador Antônio Carlos Nogueira de Oliveira, o Leivinha.
Outra influência para a escolha do nome foi o Largo das Palmeiras, em São João da Boa Vista, onde aconteceu a reunião definitiva para fundação do Palmeiras alvinegro. Hoje o local se chama Praça Coronel José Pires. Para Guará, ex-jogador do Palmeirinha, o clube conquistou respeito durante sua vida profissional, mas a combinação do nome com as cores sempre causou curiosidade. – No início soou um pouco estranho, porque Palmeiras preto e branco é realmente diferente. A história do Palmeiras foi muito bonita. Tudo valeu muito a pena. No começo era meio pejorativo, mas na medida em que foi passando, os adversários foram sentindo a força do Palmeiras e o respeito existiu durante todo esse tempo que a gente pôde jogar – lembrou o ex-atleta.
O ex-goleiro Ronaldo também achou estranha aquela combinação quando houve um jogo amistoso em 1989 entre o Corinthians e o Palmeirinha. O Timão, à época, além do camisa 1, tinha em seu time jogadores como Neto e Paulo Sérgio, e venceu o “dérbi” por 2 a 0. – Foi uma tiração de sarro, o goleiro Ronaldo ficou impressionado de o Palmeiras usar preto e branco – recordou Leivinha, que também convive com perguntas de amigos torcedores do xará mais famoso.
O duelo entre os dois Palmeiras também já aconteceu, mas entre as equipes máster. O ídolo da Academia, Ademir da Guia, liderou a vitória do Verdão por 3 a 1. Houve também na cidade uma tentativa de estabelecer um “dérbi” contra o Corinthians Sanjoanense.
Em 1958, o Palmeirinha levou a melhor no chamado “Torneio Extra”, mas a rivalidade não prosseguiu, pois o xará do Timão fechou as portas. O grande rival do Alvinegro foi a Esportiva Sanjoanense, que é tricolor como o São Paulo e revelou ao futebol brasileiro dois zagueiros bicampeões do mundo em 1958 e 1962: Bellini e Mauro Ramos de Oliveira.
Cidade acima da rivalidade Em época de dérbi paulista, corintianos e palmeirenses de São João da Boa Vista se dividem, mas todos deixam claro que o Palmeiras alvinegro é a prioridade. – Por tudo que ele representa pra cidade de São João da Boa Vista, pra minha família, acho que vale a pena fazer esse esforço. (...) É engraçado [ter nome do rival e cor de outro rival], a gente diz que é cômico para não dizer trágico – comenta a torcedora Lívia Campos, aos risos.
Além da curiosidade A história do Palmeiras de São João da Boa Vista tem muito mais do que a curiosidade de seu nome e das cores. O time viveu seu auge em 1979 e chegou a conquistar o título da Segunda Divisão, equivalente à Série A3 atualmente. O artilheiro da competição foi o atacante Mirandinha, então recém-chegado da Ponte Preta. O ex-jogador foi a principal revelação do clube. Depois de passar pelo time de São João da Boa Vista, ele jogou por Botafogo, o xará Palmeiras da capital, Corinthians, Santos, Seleção Brasileira e foi pioneiro no futebol inglês na década de 1980.
Em 1998, a equipe de São João da Boa Vista disputou pela última vez uma competição profissional, a então quinta divisão do futebol paulista, e após ser eliminado na primeira fase, encerrou as atividades profissionais. Atualmente, o estádio Getúlio Vargas, de propriedade do Palmerinha, só recebe jogos de futebol amador. De acordo com o vice-presidente José Cláudio Ferreira, um retorno às competições oficiais não está nos planos em curto prazo, mas a atual direção prevê a volta das categorias de base. – Nós estamos adaptando esse espaço do estádio de acordo com as exigências dos bombeiros e da Federação Paulista de Futebol (FPF) e acredito que para o ano que vem já devemos ter alguma novidade caso não tenha nenhum imprevisto. Estamos trabalhando para isso – concluiu Ferreira. * Colaborou sob supervisão de João Fagiolo



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