17/11/2023 07:48

Diretor financeiro explica dívidas e prevê Corinthians saudável em "mais quatro ou cinco anos"

Diretor financeiro explica dívidas e prevê Corinthians saudável em

Em vez de taças e conquistas, números.

Na reta final da gestão de Duílio Monteiro Alves, o torcedor do Corinthians é bombardeado com informações retiradas de balanços financeiros e tenta entender como uma administração sem títulos pode ter sido boa para o clube.

Personagem importante na gestão corintiana nos últimos três anos, o diretor financeiro Wesley Melo concedeu uma entrevista exclusiva ao ge e falou sobre os desafios que encontrou.

– Gostaria de pagar todas as dívidas do Corinthians, desta gestão ou de outra. Mas temos de fazer alguma seleção. Casos como de Ralf, Jadson e outros, envolvem negociações. O cara não está no Corinthians, muitas vezes está judicializado, às vezes ele quer mais do que a gente entende que tem de pagar, então fica a discussão, um processo de negociação que se alonga. Não me orgulho, gostaria de estar em dia com todo mundo. Mas, no fim das contas, a gente tem que fazer escolhas.

Com uma arrecadação prevista próxima do bilhão em 2023, mas uma dívida na casa de R$ 850 milhões, o dirigente disse que só a manutenção do caminho construído poderá dar fôlego ao clube:

– A dívida é o nosso calcanhar de Aquiles, com os juros muito altos, acima de 13% ou 14%, ele foi um desafio enorme nos últimos três anos e vai seguir sendo nos próximos três ou quatro anos também. A mudança de mentalidade e esse novo estilo de gestão tem de ser do Corinthians, que seja perpétuo, que não seja de uma gestão específica. A próxima gestão terá um planejamento estratégico preparado, que poderá revisar, criticar, alterar, rasgar e jogar fora se quiser, mas servirá de guia.

Wesley Melo, Diretor Financeiro do Corinthians — Foto: Rodrigo Coca/Ag. Corinthians

Wesley Melo, Diretor Financeiro do Corinthians — Foto: Rodrigo Coca/Ag. Corinthians

No próximo dia 25 de setembro, o clube elegerá um novo presidente: André Luiz Oliveira, da situação, ou Augusto Melo, da oposição. Com bom trânsito no clube, Wesley Melo garante que ajudará na transição para que o Corinthians não sofra com impactos políticos entre 2023 e 2024:

– Assim que as eleições estiverem definidas, vamos fazer uma transição. Já conversei algumas vezes com o pessoal da situação, outras com o pessoal da oposição, então esperamos uma transição muito suave. E que eles deem continuidade a essa disciplina orçamentária, a essa estabilização da dívida, a começar a abaixar a dívida, a aumentar receita e diminuir custos – disse o dirigente.

Para o diretor, o clube precisará se manter nesta linha controlada para viver dias melhores:

– Acho que vai mais uns quatro ou cinco anos nesta batida – projetou.

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Duilio revela valores da receita e da dívida atual do Corinthians

Confira a entrevista com Wesley Melo:

ge: Qual o cenário que o próximo presidente receberá o Corinthians?

– A gente parte de uma base real. Acabamos de apresentar no Conselho Fiscal e no Conselho de Orientação o reforecast de 2023 (ajuste do orçamento), como imaginamos que vai fechar o ano, falta a apreciação do Conselho Deliberativo, mas essa é uma base de comparação. O que planejamos é uma manutenção deste resultado positivo dos últimos três anos, que é de superávit operacional ou de Ebitda, e o superávit final lá na última linha da demonstração de resultado.

– Projetamos R$ 20 milhões de superávit para este ano e uma receita de cerca de R$ 950 milhões. Faltam 45 dias para acabar o ano, quem sabe batemos R$ 1 bilhão e aumentamos um pouco mais o superávit, mas esse é o orçamento que a gente se comprometeu e que esperamos entregar. Com uma dívida um pouco reduzida: de cerca de R$ 950 milhões para hoje algo abaixo de R$ 900 milhões.

Vocês renovaram o contrato com a Falconi Consultoria por mais três meses, para que a próxima gestão avalie a permanência no próximo triênio. Ela teve papel importante na gestão?

– Uma das grandes coisas que a gente fez na gestão foi ter contratado a Falconi. Ela trouxe uma expertise de governança, de processos, de procedimentos, de disciplinas que foi importante e deixou raízes no clube. A gente entende que é importante que a Falconi seja mantida. Se não for ela, que seja outra de mesmo nível. É que, sozinho, só com os executivos que a gente tinha e com a nossa equipe, a gente entendeu que seria difícil. A gente precisava de uma ajuda especializada e focada. Nossa equipe está no dia a dia, nas questões transacionais, mas a gente precisava de um olhar de gestão, de busca por eficiência, e eles cumpriram bem o papel. Por isso renovamos por três meses.

Mas, na prática, qual foi o trabalho implementado por eles? Por que foram tão importantes?

– Podemos explicar com alguns exemplos como eles atuam. Eles revisitaram todos os custos, por exemplo, do departamento aquático. E foram comparar com custos de mercado, de outros clubes, onde podemos ter ganhos no preço. Revisaram o ciclo de compras, será que estamos comprando no período certo? Tem sempre três cotações para comprar. A gente tem um departamento de compras que faz isso, mas você ter uma visão de fora de especialistas revisando te traz uma economia. Mas o mais importante que eles trouxeram foi a disciplina de seguir um orçamento.

– Então eles chegaram, analisaram todos os departamentos, todos os processos financeiros e mapearam todas as eficiências e ineficiências que a gente tinha. Criamos um orçamento já com a revisão da Falconi e fomos acompanhar. O departamento terrestre tinha um determinado valor para gastar no mês. Se ele passou, a Falconi se juntava com os gestores, mostrava onde era o gasto adicional e fazia um plano de ação para recuperar. Se gastou R$ 50 mil a mais, como fazer no mês seguinte para retornar isso? O objetivo era ter um superávit, um fluxo de caixa positivo.

– Nem sempre as coisas saem como planejado. Por exemplo, a Taxa Selic, a taxa referencial para os nossos juros, a gente planejou uma curva descendente para a taxa de juros, mas ela se manteve num nível muito alto por mais tempo. Isso fugiu do controle, então a despesa financeira foi maior do que o planejado. Paciência, vamos buscar outra economia. Ou buscar mais receita para cobrir esse gasto. Então tivemos esse monitoramento de cada linha do balanço junto de cada departamento, com reuniões mensais com cada um deles. Essa cultura de fazer com que cada um conheça seu orçamento e o monitoramento mensal foi um grande ganho.

Wesley Melo e Duilio Monteiro Alves, dirigentes do Corinthians — Foto: Rodrigo Coca / Ag.Corinthians

Wesley Melo e Duilio Monteiro Alves, dirigentes do Corinthians — Foto: Rodrigo Coca / Ag.Corinthians

Ainda sobre a próxima gestão, o clube comprometeu alguma receita, fez alguma antecipação de recebível que era prevista para 2024?

– Não, não vai ter nenhuma receita comprometida. Mas será um desafio. Quem assumir o clube, pegará um faturamento próximo a R$ 1 bilhão. Um clube que tem cerca de mil funcionários entre clube e futebol. Somos uma empresa de grande porte. Temos uma estrutura parruda, temos um estádio, então quem assumir sabe que terá de trabalhar muito. Não é o clubezinho da esquina. É um clube de folha de pagamento alta, um clube social maravilhoso, mas que tem um custo. Não vai ter uma receita comprometida, mas terá de buscar para manter uma receita alta, pois o clube é gigante.

Durante a campanha, algumas propostas aparecem envolvendo obras estruturais, desde a conclusão do alojamento da base, como a construção de um shopping ou de um hotel. O clube tem condições de fazer esse tipo de investimento?

– Isso até me chateia um pouco, pois vejo muita gente iludindo o torcedor, fazendo promessas vazias sem conhecer a realidade, ou até conhecendo a realidade que o clube, as dificuldades que a gente passa e mesmo assim fazendo promessas que não podem ser cumpridas. Se fosse fácil fazer o alojamento da base, a gente já teria feito. Se fosse fácil construir mais arquibancadas no estádio e assumir o custo adicional de manutenção, a gente também já teria feito. Soluções mágicas são uma irresponsabilidade. É política de pão e circo, falar o que a torcida quer ouvir, não o que precisa ouvir.

– A gente vem melhorando as finanças, a gente tem capacidade de fazer o (alojamento do) CT da base nos próximos três anos? É claro que a gente tem. Temos capacidade de fazer mais investimentos na sede social? Sim, temos. Mas é importante que cada uma das ações tenha um planejamento financeiro. De onde vai sair esse dinheiro? Ele é prioritário?

A conclusão do CT da base é uma obra de R$ 30 milhões?

– Sim, é muito dinheiro. Vou ter um superávit de R$ 20 milhões. Tenho uma despesa financeira na casa de R$ 80 milhões, R$ 100 milhões. Então como vou fazer? Poderia me endividar em R$ 30 milhões e terminar isso? Poderia. Mas é o momento para fazer isso? Essa disciplina e coragem de falar o que dá para fazer ou não, nós tivemos. E me entristece ver candidato prometendo o que não vai cumprir. Ou, se for cumprir, vai perder a mão, vamos voltar para a linha crescente do endividamento.

O Corinthians hoje tem uma folha salarial de R$ 22 milhões só com o futebol. No comparativo com outros clubes, é um número razoável? Dá pra fazer futebol gastando menos dinheiro?

– Era o que a gente precisava para esse momento. Quando pegamos a gestão, ficamos sete meses sem contratar nenhum jogador, e os contratos vencendo não foram renovados, além de alguns que rescindimos. O objetivo do primeiro ano era fazer uma economia de folha, era reduzir o elenco, isso foi pensado e executado. Depois vieram Giuliano, Renato Augusto, Róger Guedes, estávamos com um time muito jovem. Já no segundo ano, algum investimento foi necessário. E neste terceiro ano também, o Corinthians não pode ficar tão distante de clubes como Palmeiras, Flamengo e Atlético-MG, que investem muito.

– Investimento traz resultado. Este ano não estamos bem, está sendo um Brasileirão difícil, não é o que a gente merecia com esse elenco, mas investir no futebol é necessário. Nossa folha, algumas pessoas que falam que está perto da do Flamengo e do Palmeiras, a gente entende que está um pouco abaixo, mas não é um ranking de quem investe mais. Esse era um número que a gente via como necessário em 2023.

Pelo último balanço, vimos um aumento de endividamento com direitos de imagem. No início da gestão, era uma dívida de R$ 120 milhões e o número caiu. Neste ano, iniciou com R$ 66 milhões e agora já está em R$ 88 milhões. Qual o motivo do aumento?

– Dentro desta conta do passivo, não tem só direito de imagem em si, que passa o mês, teve a visibilidade, o cara emite uma nota e a gente tem que pagar. Ali também tem uma parte de luvas quando o jogador vem. Então tem a aquisição do Rojas tem um pedaço aí, que não teve compra de direitos, mas teve uma negociação além do salário, então pagamos via direito de imagem. O Yuri Alberto também, quando fizemos a transação final, nos comprometemos a pagar luvas e entrou nesta conta.

– Quando pegamos salário mais direito de imagem, que é o que compõe a remuneração normal e recorrente do mês do atleta, isso está em dia. Atrasamos uma vez ou outra, apenas um ou dois dias. Agora essa outra parcela que sobe cerca de R$ 20 milhões neste último balancete de agosto, tem essa parcela de aquisição de atletas ou luvas dos atletas, que aí pode ter alguma coisa em atraso, sim.

Vemos algumas dívidas antigas com jogadores como Ralf, Jadson, Cristian.. A impressão é que a diretoria priorizou pagar quem está no clube, impostos e rolou algumas dívidas, foi isso?

– Não é exatamente isso, mas é que o cobertor realmente é curto. Eu gostaria de pagar todas as dívidas do Corinthians, desta gestão ou de outra. Mas temos de fazer alguma seleção. Casos como esse, de Ralf, de Jadson, na verdade envolvem negociações. O cara não está no Corinthians, muitas vezes está judicializado, muitas vezes ele quer mais do que a gente entende que tem de pagar, então fica a discussão, um processo de negociação que se alonga. Não me orgulho, gostaria de estar em dia com todo mundo. Mas no fim das contas a gente tem que fazer escolhas. Tenho um dinheiro reservado, temos um processo de transfer ban, vou pagar aquele que me dá mais prejuízo.

Hoje a próxima janela de transferências abre apenas em janeiro, então um transfer ban de fato teria pouco efeito. Isso tem feito vocês deixarem esses pagamentos mais para a última hora?

– Na verdade nem falamos sobre isso, mas se eu tiver um caso real e puder esperar até a última hora, eu vou esperar. Ou é isso ou a folha de pagamento. O Matías Rojas foi assim. Tinha um processo na Fifa, tínhamos um limite para liquidar ou não poderíamos inscrever novos jogadores. Aí temos aquela grande apreensão: e agora, não vamos poder inscrever o Rojas? A gente estava monitorando isso. Eu não tinha de fato aquele dinheiro para pagar a pendência na Fifa, mas eu sabia que esse dinheiro ia entrar a tempo de pagar. E aconteceu: entrou o recurso, pagamos e Fifa e inscrevemos o Rojas.

O caso do Fausto Vera é semelhante?

– A gente tem uma dívida com o time dele (Argentinos Juniors) e esperamos pagar nas próximas semanas. Tem um dinheiro para entrar que deve ser suficiente para pagar. Se não entrar, vamos discutir, renegociar, dar uma explicação ao outro clube. Não é que não pagamos porque a gente não quer, a situação é complicada, nosso balancete é público. Mas tudo tem planejamento. E a gente espera liquidar bastante as dívidas até o final do ano. São 45 dias, não acabou o fluxo de entrada de caixa ainda neste ano.

O Vasco é o único time que está devendo para vocês? Não pagaram nada pelo Lucas Piton?

– Não pagaram nada, mas estamos conversando com o Vasco, temos reunião agendada na próxima semana. Eles vão pagar. Tem alguns outros clubes também. Nosso corpo jurídico acompanha tudo.

Noticiamos nesta semana sobre a dívida pela compra do Ángel Romero, de 2014, que hoje o empresário cobra mais R$ 11 milhões. Como estão vendo esse caso? (veja detalhes aqui)

– É algo que preocupa, uma dívida milionária, um assunto relevante. E fugiu de controle pela variação do dólar, que está R$ 5. Na época era R$ 2,2. Foge do controle, é um país inflacionário, com juros altos. Mas está sendo acompanhado pelo jurídico, estamos fazendo as simulações e tentando um acerto.

– É importante dizer que quando há uma dívida assim, isso é provisionado, isso afeta o nosso balanço. Quando chega no final do ano, a gente pede uma carta aos advogados para eles relacionarem todas as disputas e as expectativas de perda. Se o advogado fala de uma expectativa de perda de cerca de R$ 6 milhões, a gente é obrigado a provisionar e isso é revisado na auditoria externa.

Foi um ano de muitas troca de técnicos. Vocês devem algo para o Vanderlei Luxemburgo? Hoje o clube paga acordos com outros técnicos antigos?

– Do Luxemburgo tem uma parte. A CLT está paga, tem uma parte de direito de imagem que estamos discutindo, mas até o final do ano devemos pagar tudo. Do Fábio Carille estamos pagando. Não tem nada que a gente tenha combinado algo que não esteja pagando.

Luxemburgo ainda tem dinheiro a receber do Corinthians — Foto: Marcos Ribolli

Luxemburgo ainda tem dinheiro a receber do Corinthians — Foto: Marcos Ribolli

No ano passado, o clube voltou a ter uma comissão técnica internacional, algo que não tinha desde o Daniel Passarella. Quanto custa uma comissão estrangeira, é muito caro para um clube?

– Não, não é. É o preço de um top do Brasil. Não gosto de falar valores de salários, mas posso afirmar que ele ganhava algo próximo ao que o Mano Menezes está ganhando agora. Está no mesmo nível. Talvez o Tite no Flamengo esteja ganhando mais, mas são todos mais ou menos do mesmo nível.

E para ter um clube de fato saudável, em que a dívida não sufoque o clube, serão quantos anos mais?

– Acho que vai mais uns quatro ou cinco anos nesta batida. O Flamengo, que para nós é uma referência, levou sete anos para botar a casa em ordem. Conversei algumas vezes com o ex-presidente Bandeira de Mello, não foi fácil, foi um período complicado, e depois o Flamengo deu continuidade. Como fez o Palmeiras com o Paulo Nobre, que fez uma boa gestão, colocou dinheiro com juros mais baixos, depois profissionalizou, depois o Maurício Galliote deu continuidade, agora a Leila Pereira também. O que Palmeiras e Flamengo fizeram têm grande valor. Fizemos em três anos, precisamos de mais tempo também.

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