Desde 1894, quando Charles Miller desembarcou de volta no Brasil com uma bola de futebol, pela primeira vez Corinthians e Flamengo, os chamados times do povo, vão decidir o título de torneio nacional da importância da Copa do Brasil, ambos em busca do tetracampeonato e da vaga direta na Copa Libertadores da América.
A final que fizeram antes, da então raquítica Supercopa do Brasil, disputada em 1991, no Morumbi, para apenas 2.706 torcedores, não teve a menor importância a tal ponto que Neto, o autor do único gol que deu o título ao Corinthians, nem se lembrava disso.
Agora, não.
O Maracanã e Itaquera estarão lotados para a grande decisão entre os times mais populares do Brasil, nos dias 12 e 19 de outubro, com mandos ainda por serem sorteados na terça-feira (20), na CBF.
Difícil segurar até lá, como está duro esperar o dia 2 de outubro, que desperta ansiedade incomparavelmente maior, porque decidirá algo a envolver o país inteiro —o futuro da nossa democracia, sob risco de virar Hungria.
Se a classificação do Flamengo era certa, a do Corinthians, nem tanto, mesmo em casa, embalado pela Fiel.
O 3 a 0, placar enganoso pelo andamento do segundo jogo da semifinal, teve ainda o sabor especial do bizarro gol contra do violento bolsominion, com o perdão pela redundância, Felipe Melo, ex-jogador em atividade.
Inegável o mérito alvinegro ao terminar os 180 minutos de futebol com 5 a 2 no placar agregado, mesma diferença imposta pelo Flamengo ao São Paulo, por 4 a 1.
Digno de nota é observar os 12 gols em quatro partidas decisivas, bastante fora da curva para os padrões nacionais acostumados a disputas avarentas quando taças estão em questão.
Há muito tempo pela frente até chegar o começo das refregas. Sabe-se lá como o maldito calendário influirá nos ossos e músculos dos jogadores, mesmo que os dois elencos entrem em modo poupança até o dia 12.
O que se sabe hoje é que, se o jogo de ida fosse amanhã, o Flamengo seria o favorito, em qualquer palco.
Nas últimas dez vezes em que alvinegros e rubros-negros se enfrentaram os cariocas venceram oito e perderam apenas uma, por 1 a 0, com os reservas um e gol contra estapafúrdio de Rodinei, então em desgraça, hoje xodó da Nação. Duas vezes golearam, por 5 a 1 e 4 a 1.
Só que o Corinthians começa a ser outro desde que caiu fora da Libertadores, eliminado exatamente pelo Flamengo, e passou a ter tempo para treinar e impor o estilo apregoado por Vítor Pereira.
Teremos três semanas para saborear a expectativa e especular como se comportarão os dois gigantes.
Será bom para os corintianos se forem tratados como azarões, franco-atiradores, como se estivessem com a missão cumprida ao chegar à sétima final do torneio.
Acontece que sua camisa pesa tanto quanto a do rival.
Ambos são tricampeões da Copa do Brasil. O Flamengo tem uma Libertadores (2) e um Brasileiro a mais (8), e o Corinthians, um Mundial (2) a mais. Os rubros-negros são os maiores campeões cariocas (37), e os alvinegros, os maiores campeões paulistas (30).
No quesito tamanho de torcidas, o Flamengo tem mais torcida no Brasil, e o Corinthians, mais em São Paulo do que o rival no Rio de Janeiro, embora no Maracanã caiba número maior de torcedores do que em Itaquera.
Enfim, será briga de cachorros grandes, dessas vencidas só ao fim da luta.