Um dos responsáveis por conduzir as negociações entre Corinthians e Caixa Econômica Federal pelo novo contrato de financiamento da Neo Química Arena, o diretor financeiro do clube, Wesley Melo, comentou detalhes do acordo em entrevista ao ge.
Um dos pontos explicados por Wesley Melo foi o valor que o Corinthians repassou ao banco estatal até o momento:
– O Corinthians já tinha pago cerca de R$ 165 milhões até 2017, depois o fluxo de caixa acabou não permitindo mais pagamentos – contou o diretor.
Na época da construção do estádio, o clube contraiu um empréstimo de R$ 400 milhões junto à Caixa. Porém, devido aos juros, a dívida já está em R$ 611 milhões – ela será corrigida anualmente pelo CDI (quase equivalente à taxa Selic, hoje em 13,25%) + 2%.
Boa parte desse montante será pago pelo Corinthians com o valor das receitas do naming rights da arena. A venda da propriedade foi celebrada em 2020 por R$ 300 milhões, valor que sofre reajuste anual pelo IGPM (Índice Geral de Preços do Mercado, que fechou 2021 em 17,78%). Assim, o saldo que o clube tem a receber no momento é de aproximadamente R$ 400 milhões.
Segundo Wesley Melo, a Hypera Pharma já arcou com o pagamento de duas das 20 parcelas do acordo:
– Esse dinheiro está 100% reservado no fundo, justamente para pagar a próxima parcela do financiamento.
Pelo novo acordo com a Caixa, o Corinthians começará a quitar os juros do financiamento em 2023. A partir de 2025, também pagará o principal (valor de empréstimo contraído). O novo contrato prevê parcelas trimestrais a serem pagas até o fim de 2041.
Em apresentação a conselheiros no mês passado, a diretoria alvinegra estimou que pagará à Caixa R$ 76 milhões em 2023, R$ 64 milhões em 2024 e R$ 66 milhões em 2025 e 2026. Os valores podem sofrer alterações de acordo com a variação da taxa Selic e de outros fatores.
Wesley Melo mostra confiança de que o acordo será honrado sem a necessidade de "socorro" de outras áreas do Corinthians, como o departamento de futebol:
– Não vai ser necessário tirar dinheiro do clube, a arena será autossustentável. Nesse momento, a arena está com capacidade de receita grande em termos de bilheteria, de camarotes e outras propriedades. Começamos a fazer mais eventos na nossa arena. Ela é sustentável, e a expectativa é de que sobre dinheiro mesmo a partir de 2025. A arena não é problema, mas solução!
Confira abaixo a entrevista com Wesley Melo, diretor financeiro do Corinthians:
A presidente da Caixa Econômica, Daniella Marques, disse em entrevista à Jovem Pan que o novo contrato entre o clube e o banco tem como garantias receitas de direitos de transmissão dos jogos do clube e também de eventuais vendas de atletas. Isso é verdade?
– Eu só posso responder o que ela já tornou público. No contrato assinado por nós, há cláusulas de confidencialidade, não podemos abrir detalhes. Mas passa por direitos de TV, também por receitas de vendas de jogadores, mas isso em último caso, se o Corinthians não conseguir compor o saldo para fazer os pagamentos do juros e do principal. Porém, nossas projeções são plenamente factíveis.
Nessa mesma entrevista, a presidente da Caixa afirmou que o primeiro acordo foi uma "operação de crédito muito malsucedida". Você concorda?
– De forma alguma. A primeira engenharia financeira que foi feita, conduzida pelo presidente Andrés Sanchez, na época fazia muito sentido. Para as informações daquele momento, eram relevantes, possíveis, factíveis. O problema é que o país mudou. Ações externas influenciaram e comprometeram a realização do que estava projetado. São coisas que fogem do seu controle por questões macroeconômicas. E a presidente da Caixa hoje (quarta-feira) fez novo comunicado que celebra esse novo acordo, que foi de fato relevante para as partes envolvidas.
As projeções feitas no passado estavam superestimadas?
– Foram perspectivas que não se concretizaram. Pode ter havido exagero nas projeções, eventualmente sim, mas foi um período de crise no mundo que impactou seriamente o Brasil. Pode ter tido um exagero, mas, com as informações da época, parecia fazer sentido. Hoje é fácil condenar e ver onde foram as diferenças.
Esse novo contrato com a Caixa é feito num momento em que especialistas preveem uma recessão global e um cenário de taxa de juros em elevação. Isso preocupa?
– A gente levou isso em consideração, foi um pouco cuidadoso com as projeções, fomos super conservadores. Fizemos projeção de pagamento dentro das condições que podemos honrar, com a geração de caixa que a arena permite, com todas as suas atividades e o custo de estrutura e manutenção. A sobra é factível. Claro que ninguém está 100% blindado das crises globais que podem acontecer, mas estamos muito mais preservados nesse momento, não devemos ter problema para honrar os compromissos. E não descarto conseguirmos fazer aportes maiores e antecipar esses pagamentos. Digo com confiança que o acordo é sustentável.
Caso haja sobra de dinheiro, o Corinthians pretende usar tais recursos para amortizar a dívida da arena ou para reforçar o caixa do clube?
– A taxa de juros que a gente acordou com a Caixa é muito competitiva, uma das melhores do mercado, senão a melhor. Talvez eu não tenha interesse de fazer amortização, que eu não preciso contratualmente, e traga esse recurso para o clube para pagar dívidas com indexadores mais altos. Isso é o que a gente está imaginando, eventualmente ao longo dos próximos anos poderemos avaliar de fazer um abatimento da dívida com a Caixa.
Conselheiros do clube estimam que o valor total pago pelo Corinthians pela arena ultrapasse R$ 1,5 bilhão. Essa projeção está correta?
– Pode até ser um número que a planilha de Excel permita estimar, mas ele é inócuo, não faz sentido. Ele está longe de representar uma análise adequada de uma negociação, de um compromisso do Corinthians. Vivemos num país inflacionário, com taxas de juros diferentes dos EUA e da Europa, isso impacta na compra de um carro, de um imóvel, de um bem durável. Não gosto dessa análise, acho que se for para fazer esse tipo de comentário, tem que falar que temos um Naming Rights que foi fechado em R$ 300 milhões, hoje vale 400 milhões e vou receber muito mais, talvez até R$ 1 bilhão. Acho que isso é uma informação que não agrega de forma alguma a boa negociação que a gente fez.
Esse valor de R$ 1 bilhão com naming rights é uma projeção real de vocês ou um número hipotético?
– Foi um número que eu chutei, como exemplo. O que de fato eu gostaria de deixar bem claro é que a reportagem que acabou mencionando esse valor (de R$ 1,5 bilhão) causou dúvidas em conselheiros, sócios, na torcida, mas olhada de maneira isolada é inócua. Chutei o valor dos naming rights porque a análise precisa ser mais ampla. A gente não sabe qual vai ser o comportamento da inflação, aí teria que falar também das contas a receber, não apenas das contas a pagar.
Sei que é difícil prever inflação e taxa de juros. Mas quanto o Corinthians acredita que terá de pagar de prestação à Caixa já em 2023?
– A gente tem as nossas projeções, mas eu prefiro não comentar, não dar um número absoluto porque ele pode prestar um desserviço, as pessoas podem começar a fazer contas que não são simples frente a um financiamento tão complexo, mas estaremos preparados para pagar esses juros. A gente projeta não ter nenhum tipo de atraso.
Inicialmente, o prazo de pagamento do financiamento da Copa era de 180 meses. Ou seja, 15 anos. Agora, o clube firmou um acordo até 2041. Isso não deixará o Corinthians engessado financeiramente por mais tempo?
– Acredito que não, esse prolongamento foi importante para deixar um fluxo de pagamento factível, que a gente consiga honrar. Não adiantaria nada fazer acordo que depois tivesse dificuldade de honrar, não essa, mas as próximas gestões do clube. O compromisso é do Corinthians, não de quem está na cadeira. Foi necessário colocar esse prazo mais longo para deixar todo mundo satisfeito e confiante do pagamento: torcida, imprensa, oposição, Caixa, todo mundo. Essa era a condição necessária para ser firmado um acordo.
Corinthians, 2022, Neo Química Arena
Muita sujeira por trás de tudo isso.vergonhoso.
Tudo não passa de teoria,eu quero ver na prática daqui a alguns anos.